Dados recentes apontam que, ao invés de o mundo caminhar para a paridade de gênero, a Geração Z é a mais misógina dos últimos tempos, com muitos dos homens se ressentindo pelos direitos conquistados pelas mulheres. Entre os principais responsáveis pela tendência estão as redes sociais que, através do impulsionamento de trends que pregam “mulheres ideais” na visão masculina, estimulam e monetizam criadores que popularizam discursos de ódio e subordinação feminina enquanto elevam o índice de feminicídios do país.
A história da humanidade mostra que, tradicionalmente, a condição social da mulher foi reduzida a dois títulos: mãe e esposa. Por séculos, elas não tiveram voz ativa dentro ou fora de casa e nem a escolha do que seriam.
Até pouco tempo atrás, uma mulher ter uma profissão e uma fonte de remuneração era considerado impensável e escandaloso. Por anos, conquistar um marido foi muito mais importante do que qualquer outro sucesso que ela teria em toda a sua vida. No lugar de um emprego, elas se ocupavam exclusivamente com o cuidado da casa e com a educação dos filhos.
Mas essa realidade não está tão distante assim; e não é só pelo fato de as primeiras conquistas feministas datarem apenas de meados do Século XIX, quando, em 1848, durante a Convenção de Seneca Falls, nos Estados Unidos, pela primeira vez, as mulheres tiveram suas reivindicações por direitos civis ouvidas. E, desde então, passaram a conquistar, paulatinamente, cada vez mais espaço no mundo.
O passado se aproxima também porque, atualmente, as redes sociais não só têm incentivado, como também financiado conteúdos que pregam pela subordinação feminina. Além dos discursos de disseminação do ódio às mulheres, comumente feitos por homens, agora é tendência que elas mesmas vendam o dia a dia de uma mulher “tradicional” através de trends como a das “tradwifes” e “esposas troféu”.
O que são essas trends?
A “tradwife” é uma trend em que as mulheres abraçam um projeto de vida ideológico. Elas constantemente se submetem aos seus parceiros, ocupam-se integralmente do cuidado com a casa e com a família, sobretudo com a educação dos filhos, e costumam ainda despontar um viés religioso. Tudo isso a fim de mostrar como a família tradicional, com costumes conservadores, é o pilar de uma sociedade perfeita.
Outra trend que tem tomado as redes sociais é a da “esposa troféu”. A submissão exposta neste segundo caso é parecida com as das “tradwifes”, porém, ao contrário delas, estas são um símbolo de status, principalmente masculino. Nestes conteúdos, há uma busca por status social, em que o homem chega à relação com o poderio financeiro e a mulher com a beleza.
Comumente, elas são expostas e tratadas por seus parceiros como objetos de muito valor, um verdadeiro troféu, mas raramente como uma igual. Elas acabam sendo inferiorizadas e desumanizadas por conta de sua dependência econômica.
Por que a nova geração está mais misógina?
Uma pesquisa realizada pela Ipsos em parceria com a King’s College de Londres apontou que os homens da Geração Z são os mais misóginos dos últimos tempos. 31% das pessoas do sexo masculino com idade na casa dos 20 anos acreditam que “a esposa deve sempre obedecer seu marido”. Em contrapartida, apenas 13% dos entrevistados com mais de 60 anos compartilham da mesma opinião.
As causas para o retrocesso são inúmeras. Entre elas, a ascensão da extrema-direita, a ansiedade econômica causada pela corrosão do poder de compra quando comparado à geração anterior e, sobretudo, a crise na masculinidade gerada, principalmente, pelo ressentimento da conquista dos direitos femininos e pela emancipação das mulheres, seja ela econômica, política ou social.
A fim de tentar transformar essa insatisfação em algo palpável, os homens têm se radicalizado cada vez mais. Um dos principais artifícios utilizados por eles é culpar as mulheres por seus próprios insucessos. Assim como dizia a filósofa francesa Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos nunca são adquiridos.”
Entre os movimentos que lutam contra o avanço do feminismo, estão discursos misóginos como o RedPill, Sigma Male e Incel, bastante populares nas redes sociais e que lucram com a disseminação do ódio às mulheres. Fato confirmado pela pesquisa realizada pela UFRJ, em 2024, que apontou que canais de YouTube destinados à propagação de misoginia se tornaram um modelo de negócio, já que são monetizados a partir desse tipo de produção. Mas essa não é uma exclusividade desta plataforma: em outras plataformas, além de financiar os criadores destes materiais, o algoritmo é treinado para entregá-los inclusive para perfis que não costumam buscar esse tipo de conteúdo.
Impacto dessa tendência
Se por um lado há homens lucrando com a disseminação da misoginia e criadoras que se popularizam com a venda de um “ideal de feminilidade”, de outro, há mulheres sofrendo o impacto que estes discursos recheados de violência de gênero causam em suas vidas.
De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025, foram registrados 1568 casos de feminicídio no país. É como se quatro mulheres morressem todos os dias no Brasil, exclusivamente pelo fato de serem mulheres. Em 2026, o dado se tornou ainda mais grave. De acordo com o Ministério da Justiça, apenas no primeiro trimestre do ano, em média uma mulher foi assassinada a cada cinco horas.
Um levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), identificou que 46% das mulheres não se sentem respeitadas no Brasil. O estudo apontou ainda que 8,8% das brasileiras já sofreram violência digital apenas nos últimos 12 meses.
Diante destes fatos, é impossível desassociar o crescimento dos discursos misóginos com os dados da violência pública. Não há mais como distinguir entre o “mundo real” e a internet.
Enquanto os homens lucrarem ao discorrer sobre a inferioridade e a submissão feminina, as mulheres estarão em perigo. Seja o risco de perder a vida, ou de serem incentivadas a obedecer a estes comportamentos desejados por eles, a fim de se encaixarem neste ideal de “mulher de valor”, tal qual acontecia durante o Século XIX – padrão, vale destacar, criado por uma sociedade ressentida.
____________________________________________________________________________________________________
O artigo acima foi editado por Rafaela Lima.
Gostou desse tipo de conteúdo? Confira Her Campus Cásper Líbero para mais!