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Combate ao abuso infantil: qual o papel das escolas? 

Isabela Degaspare Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

De acordo com a Campanha Maio Laranja, estima-se que, a cada hora, três crianças sofram abuso no Brasil, com mais da metade das vítimas tendo entre 1 e 5 anos de idade. A exploração sexual infantil faz parte da realidade de milhares de crianças e adolescentes, os quais lidam com agressões físicas e psicológicas, além do descaso familiar. Nesse cenário, as escolas assumem um papel importante ao acolher e proteger esses indivíduos invisibilizados.  

O abuso infantil, na maioria das vezes, ocorre dentro da casa das vítimas. Com medo, muitas não compreendem o que está acontecendo ou são constantemente ameaçadas para que não falem sobre a violência. Por isso, muitos casos deixam de ser denunciados às autoridades. Assim, a escola torna-se o ambiente onde o sofrimento da criança pode ser identificado.

A importância do acolhimento por parte da escola 

As instituições de ensino estão entre os poucos espaços que mantêm contato contínuo com crianças, pois, além de ser um espaço de ensino, são também espaços de convivência. Ao conviverem diariamente com os alunos que são violentados, professores e funcionários percebem as mudanças de comportamento e sinais de alerta.

Por meio da criação de vínculos e da observação cotidiana, é possível notar alterações graduais, como alteração de humor, isolamento, medo excessivo e queda no rendimento. Em muitos casos, a criança não consegue verbalizar diretamente o que acontece em razão dos traumas desenvolvidos. 

Segundo a pedagoga Luana Lourenço, muitos funcionários da escola em que atua já identificaram casos de abuso infantil pela mudança de comportamento na criança: “Ela [a criança abusada] era muito alegre e comunicativa e começou a ficar mais calada.” 

A profissional também destaca que o acolhimento, refletido na postura dos educadores, é fundamental:

“A gente precisa tirar essas informações com respeito, carinho e confiança”. 

Ela ainda orienta que professores deveriam agir com cuidado, empatia e atenção, para evitar julgamentos ou reações que possam gerar medo ou retraimento. A forma como a criança é recebida pode determinar se ela continuará tentando se expressar ou se voltará ao silêncio.

Ao criar um ambiente seguro, respeitoso e de confiança, a instituição possibilita que a criança se sinta protegida e ouvida. Cabe à coordenação local oferecer um espaço onde esses sinais possam emergir sem medo.  

Como agir diante de uma suspeita? 

O primeiro passo envolve o registro e a comunicação interna. Ao perceber comportamentos ou sinais preocupantes, o professor deve comunicar a coordenação pedagógica ou a direção escolar. Esse cuidado garante que a situação seja tratada de forma institucional, a fim de preservar a criança e evitar exposições indevidas.

Em seguida, a escola atua como ponte com a rede de proteção, acionando os órgãos competentes, como o Conselho Tutelar — visto que não é necessário ter provas ou certezas. A suspeita já é suficiente para o encaminhamento.

Outro aspecto central desse processo é a preservação da criança. A especialista afirma que a escola deve garantir que não haja exposição, pressão ou responsabilização do indivíduo pelo abuso sofrido. Todo o procedimento precisa respeitar a segurança emocional da vítima.

Para a psicopedagoga, Lilian Ferreira, é necessário evitar perguntas excessivas ou abordagens invasivas: “esses tipos de perguntas só tornam aquela criança ou estudante mais refém do próprio relato.” 

Ao exercer esse papel, a equipe escolar contribui para que a criança não permaneça sozinha diante da violência. O encaminhamento correto permite que outros profissionais, como assistentes sociais, psicólogos e conselheiros tutelares assumam a condução do caso, garantindo proteção e acompanhamento adequados.

É importante destacar que, diante de uma suspeita, a função da instituição não é investigar ou confirmar o caso, mas proteger a criança e acionar a rede responsável, sendo a porta de entrada para o Conselho Tutelar e autoridades competentes.

Educação preventiva  

Além da função preventiva e denunciadora, a escola também pode ser educativa para instruir seus alunos em casos de exploração sexual. Ao trabalhar valores como respeito, empatia, cuidado com o próprio corpo e limites nas relações, ela contribui para o fortalecimento da autonomia das crianças. Essas ações, adaptadas a cada faixa etária, ajudam a formar indivíduos conscientes de seus direitos e preparados para reconhecer situações inapropriadas. 

Aulas sobre o corpo humano são um dos principais caminhos. Ao ensinar o que é privacidade e que o corpo pertence à própria criança, elas aprendem que têm o direito de dizer “não”, que existem toques permitidos e outros inadequados, e que devem buscar ajuda quando algo as incomoda ou foge dos padrões ensinados.

Outro recurso é a criação de conversas e rodas de diálogo. Esses momentos permitem que as crianças possam falar sobre sentimentos e situações que as constrangem, contribuindo para a identificação de possíveis abusos e se sintam seguras para buscar ajuda.

Lourenço ainda compartilhou sua experiência sobre os ensinamentos em sala de aula: “A gente faz uma roda de conversa e eu explico que o corpo do outro deve ser respeitado e que nós não devemos tocar no corpo de ninguém sem permissão.” 

Falhas e desafios educacionais

Apesar do papel fundamental das escolas na proteção das crianças, o enfrentamento ao abuso infantil ainda esbarra em diversos desafios. Na prática, muitas instituições não contam com estrutura ou suporte suficientes para lidar com situações tão delicadas. 

Preparação especializada, como protocolos e orientação pedagógica, são essenciais dentro das equipes educacionais. Mas a falta de diretrizes claras, como orientação estruturada e procedimentos padronizados, pode fazer com que algumas situações sejam ignoradas e não sejam encaminhadas à medida de proteção. 

Frequentemente, o peso desses casos recai sobre os professores. Por estarem diariamente em sala de aula, eles convivem com as crianças e percebem as primeiras mudanças de comportamento. Sem formações adequadas, muitos deles lidam sozinhos, por exemplo, com a dúvida sobre como abordar a criança, até onde pode ir, a quem recorrer e quando denunciar. 

Esse cenário revela um problema maior: quando a escola não estabelece orientações claras, a responsabilidade deixa de ser coletiva e passa a ser individual. O medo de errar, de se envolver ou de causar conflitos contribui para o silêncio e a insegurança dos educadores. 

Apesar da importância da prevenção no combate ao abuso infantil, a abordagem do tema ainda enfrenta resistência dentro e fora das escolas. Uma das principais razões dessa resistência é a ideia equivocada de que falar sobre o corpo ou sobre limites pode incentivar comportamentos inadequados ou antecipar questões consideradas “adultas”. Essa percepção pode fazer com que escolas evitem abordar o assunto de forma direta, limitando ações que poderiam fortalecer a proteção das crianças. 

“O maior desafio hoje é no sentido da prevenção, porque a prevenção vem com informação, e tocar nesse ponto de abuso e sexualidade é muito difícil com a comunidade que a gente tem”, afirma Lilian. 

Maio Laranja: campanha nacional de conscientização

O Maio Laranja é uma campanha nacional de conscientização e combate ao abuso infantil e à exploração sexual de crianças e adolescentes. A iniciativa foi criada em memória de um caso emblemático de violência que mobilizou o país. É um mês voltado para a proteção, conscientização, prevenção e mobilização social. 

Nesse mês, educadores têm ainda maior oportunidade de aprofundar discussões que deveriam ser faladas ao longo de todo o ano. A ação não deve envolver somente escolas, mas a população como um todo. A proteção de crianças e adolescentes é de responsabilidade coletiva. Como conclui Luana:

“É a vida daquela criança que pode mudar através do seu ato”

Em caso de suspeita ou confirmação de violência, qualquer pessoa pode denunciar por meio do Disque 100, canal gratuito e sigiloso.

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O artigo acima foi editado por Mariana Garcia.

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Isabela Degaspare

Casper Libero '29

Estudante da Cásper Líbero, escreve sobre política, entretenimento e temas atuais, acredita no jornalismo como ferramenta de reflexão, informação e dialógo.