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Casper Libero | Culture

O papel da fotografia editorial contemporânea como expressão artística em um mundo de imagens geradas por IA

Nina Simonetti Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

“Rejeitando a modernidade e resgatando a tradição em toda chance que eu posso é fazer uma escolha no processo.”, relata Drew Johnson em entrevista para Impact. Com as diversas introduções tecnológicas ao mundo contemporâneo, muitas áreas da comunicação passaram por uma série de mudanças estruturais. No meio editorial, a Inteligência Artificial tem sido inserida para agilizar produções, transformando, desse modo, o processo criativo.

O uso da inteligência artificial tem se mostrado cada vez mais expressivo no universo editorial, agilizando produções e transformando o exercício da criatividade. Pela praticidade de fabricação e pelo baixo custo de produção, E-commerces, campanhas de marcas e publicidades digitais têm aderido veementemente a esse novo modelo. Como resposta a essa tendência, alguns fotógrafos estão fazendo sucesso ao produzir capas de revistas a partir de modelos que enfatizam que o fazer criativo humano é algo que a IA não consegue reproduzir.

as transformações artísticas

Em 1839, o surgimento do daguerreótipo abalou as estruturas do modelo artístico da época, pois eliminou o retrato pintado por encomenda. Em decorrência deste fenômeno, muitos artistas passaram a acreditar que a produção de ilustrações entraria em colapso e a fotografia, percebida como a nova tecnologia do período, decretaria o fim da pintura.

A fotografia, no entanto, trouxe um novo entendimento sobre a arte. Após 1840, de fato, a pintura foi superada em sua capacidade de representar a realidade. Porém, ao mesmo tempo, foi libertada da necessidade de ser realista. Os artistas, então, perceberam que eram capazes de produzir algo que a fotografia não conseguia: pintar as cenas como as sentiam. Esse movimento, provocou o surgimento do Impressionismo, no século XIX, inaugurando uma demanda de retratos menos realistas, na qual os pintores obtiveram a oportunidade de explorar novas expressões, as quais a câmera não conseguia capturar. Em 2026, o cenário se repete, mas o uso deliberado da IA na criação imagética tem colocado em discussão o futuro da fotografia comercial.

uma falha vantajosa

No mundo da tecnologia contemporânea, o que valoriza a fotografia é o preenchimento de uma brecha deixada pela IA. Caracterizado por uma produção instantânea e de baixo custo, o desenvolvimento de imagens editoriais feita por IA tem sido uma solução prática para muitas empresas. Em 2024, por exemplo, a Coca-Cola gerou discussão após lançar três anúncios de natal produzidos por IA. As propagandas continham elementos com erro de continuidade, que mudavam de forma. No natal seguinte, o Mcdonald ‘s foi muito criticado, os espectadores acharam os visuais perturbadores e concluíram a execução da IA como “assustadora” e “emocionalmente vazia”.

Embora a IA tenha uma capacidade de criação ampla, ela trabalha com base em médias estéticas do que já existe, o que acaba criando um “limbo estético” que provoca uma padronização de produção, em que todas as capas começam a ter a mesma textura e iluminação “perfeita”. Essa sistematização da beleza excessiva e sem falhas que a IA tenta produzir acaba, por vezes, saturando o interesse do público. Com o tempo, essa imagem “perfeita” parece ausente de falhas, fácil e descartável. Tendo em mente que a imagem mergulhada em um aspecto de perfeição contemplada foi criada em 10 segundos, por um simples comando, o efeito de “surpresa” desaparece e a mente satura.

A fotografia autoral, por outro lado, compreende uma conexão emocional entre o fotógrafo e o fotografado, envolvendo uma interpretação individual sobre o que é capturado. Enquanto isso, a IA apenas calcula o que, na prática, enfraquece a função social da fotografia. Como reflexo disso, revistas como The Cut ou Papers têm produzido capas de alta qualidade, que provocam no público um sentimento de proximidade com a obra, dando início a um novo movimento de reforço ao desapego da tecnologia. A partir de inovações que enfatizam a criatividade humana que a IA não é capaz de reproduzir, os artistas estão inovando: recortando, colando, sobrepondo imagens e texturas vibrantes e temáticas, o scraping tem sido um modelo muito utilizado entre esses artistas.

a aversão ao artificial

Em um cenário que as imagens feitas por IA estão dominando o campo digital, essas técnicas manuais remetem um caráter mais autoral e menos sintético, o que chama a atenção do público. Em 2025, a Ipsos realizou um estudo sobre os panoramas acerca da percepção pública sobre o uso de IA. Conforme os dados, 62% dos entrevistados têm uma preferência inegável pelo “toque humano” em conteúdos e campanhas. O efeito “uncanny valley” explica essa disparidade: algo que tenta parecer humano, mas com micro-percepções ligeiramente erradas, faz com que o cérebro detecte e, consequentemente, sinta uma certa aversão a tal.

Para além disso, uma pesquisa da Bowling Green State University constatou que pessoas têm emoções mais positivas ao olhar para pinturas feitas por humanos. Segundo a investigação, a razão para essa tendência seria a capacidade humana de representar autorreflexão, atração, nostalgia e diversão em suas obras – o que permite uma conexão direta com a obra. Ian Wood, artista óptico, acredita que a sociedade precisa de mais artistas como ele, pois suas obras, feitas à mão, contém uma essência única. Em entrevista para a Impact, ele conclui: “As pessoas simplesmente vão gostar porque é feito por um humano”.

A aura sedutora transmitida pela fotografia autoral, portanto, reside na sua capacidade de cumprir a premissa da arte: a de transformação. Se a arte molda a vida humana, uma estética puramente sintética e insensível ignora que a beleza reside no erro, na vulnerabilidade e na conexão. Assim como o daguerreótipo não significou o fim da pintura, mas a libertou para novas formas de expressão, a IA não decreta o fim da fotografia, ela a desafia a reafirmar o que a torna insubstituível. O que as capas da The Cut e da Paper evidenciam é que o público sente, mesmo que intuitivamente, a diferença entre uma imagem calculada e uma imagem vivida. Recuperar o fazer manual e o olhar subjetivo na fotografia editorial é um ato de resgate humano e uma afirmação de que a imperfeição é, na realidade, o que torna a obra comovente.

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O artigo acima foi editado por Nefertiti Beckman.

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Nina Simonetti

Casper Libero '29

Journalism student passionate about social issues, politics, culture and entertainment.