Em maio de 2024, perdas significativas marcaram todo o território do Rio Grande do Sul. A chuva que perdurou por mais de duas semanas, resultou, segundo a defesa civil do estado, em mais de 180 mortes, 80 mil pessoas em abrigos e mais de 600 mil desalojados, além de provocar sequelas duradouras na população de centenas de municípios gaúchos.
A tragédia teve início no dia 27 de abril de 2024, quando chuvas que ultrapassaram 700mm atingiram cidades do estado. Em seguida, rios e lagos transbordaram, bairros ficaram submersos, pessoas estavam desabrigadas e o registro de mortes e desaparecidos não paravam de crescer.
O governo estadual diante da calamidade contou com apoio financeiro e humano do governo federal e, em parceria com a Fiocruz, investiu em mais de três mil postos de saúde para ajudar a população. No entanto, mesmo após essa ajuda, o estado do Rio Grande do Sul ainda luta com os desafios que permaneceram depois da tragédia.
A inevitável crise
As enchentes no Rio Grande do Sul sempre ocorreram, porém, nunca alcançaram essa magnitude. O tecnologista da CEMADEN especialista em desastres naturais, Rafael Luiz, explica que o fenômeno ocorreu devido a uma série de fatores, a junção de manifestações atmosféricas e a falta de estrutura urbana colaboraram para a catástrofe.
Rafael esclarece que além da colisão das massas de ar, o planejamento territorial das cidades também foi responsável pela vulnerabilidade na qual a população estava sendo exposta. O problema não foi como o governo lidou durante a situação, mas sim como houve falta de preparo antes da crise.“A quantidade de chuva que caiu seria um desastre em qualquer lugar do mundo, trazendo impactos significativos independentemente do país”, disse o especialista.
Em 1º de maio de 2024, o portal do estado divulgou dados que afirmam que mais de 300 mil gaúchos sofreram com algum problema de infraestrutura devido à quantidade de chuva. Os desafios envolveram ausência de energia elétrica, água potável e fornecimento de telefonia e internet, além de indicar que quase 42% dos atingidos foram obrigados a deixar suas casas.
Durante os dias de chuva, a Represa 14 de Julho, localizada entre Cotiporã e Bento Gonçalves, rompeu e atingiu sete municípios, que permaneceram por 30 dias cobertos por água. Somado às enchentes na região do estuário do Guaíba, a devastação contribuiu para que o governo arcasse não só com o gasto de estruturas, mas também com a saúde física e mental da população que mesmo após o desastre teria que reconstruir a vida.
Na visão da população
Cauana Spido, moradora de Canoas há 18 anos, relata que toda a cidade jamais imaginou que algo desse tamanho poderia acontecer. Ela conta que quando vieram os alertas, aparentava ser apenas uma chuva forte, mas que depois de alguns minutos veio a notícia de que a casa de bombas 8, localizada no bairro Mathias Velho em Canoas, tinha estourado. A partir disso a água começou a subir, até atingir cinco metros.
A jovem relata que, até a água baixar completamente, passou dois meses fora de casa. Foi um período que marcou profundamente o trauma na vida de todos os moradores da cidade, que não sabiam como se reerguer após a tragédia. “No começo eu estava espantada, não sabia o que fazer. Mas logo vi as pessoas à minha volta lamentando por seus pertences, e o desespero tomou conta de mim.” conta.
Cauana também relata que após o desastre, a prefeitura cumpriu o trabalho de recuperar a cidade gradualmente, e que hoje são poucos endereços que ainda precisam de reparos. Mas a marca deixada na população jamais poderá ser reconstruída, em que qualquer chuva, as pessoas já preparam suas coisas para sair de casa.
A vida após o desastre
Mesmo dois anos após a tragédia, diversas estruturas nas cidades ainda dependem do projeto de reconstrução e planejamento da prefeitura. O governo investiu mais de R$1,4 bilhões em reparos, mas para a Secretaria de Obras Públicas (SOP) esses projetos estão servindo mais como uma forma de prevenção e aprendizado, já que na época os diques responsáveis por conter a água, não foram suficientes.
Neste ano, o Rio Grande do Sul ressaltou o aprimoramento em tecnologias voltadas para gestão de desastres, além de avançar em um projeto de reflorestamento de áreas afetadas. Além disso, o Estado divulgou uma cartilha dos benefícios aos atingidos pelas enchentes, nela é esclarecido que o governo federal pagará R$5.100 em uma única parcela às famílias que foram desalojadas ou desabrigadas.
Para a população, o trauma e as perdas emocionais nunca poderão ser reparados. Estudos apontam que, das pessoas expostas às enchentes, 72% apresentaram sintomas de ansiedade e 52% de depressão, e desde a tragédia, esse número continua em expansão. Para além de uma catástrofe climática, as enchentes deixaram marcas profundas em uma geração de gaúchos que ainda luta para transformar sobrevivência em reconstrução.
_________________________________
O artigo acima foi editado por Laís Hidalgo.
Gosta desse tipo de conteúdo? Confira a página inicial da Her Campus Cásper Líbero para mais!