Her Campus Logo Her Campus Logo
anne hathaway, meryl streep, emily blunt, and stanley tucci in devil wears prada 2
anne hathaway, meryl streep, emily blunt, and stanley tucci in devil wears prada 2
20th Century Studios
Casper Libero | Culture

O Diabo Veste Prada 2 e a “lava” que ameaça o Jornalismo contemporâneo

Her Campus Placeholder Avatar
Sofia Sá Sodero Toledo Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

No dia 30 de abril, O Diabo Veste Prada 2 estreou nos cinemas brasileiros trazendo uma metáfora que ultrapassou o universo da moda e passou a dialogar com o Jornalismo contemporâneo: a “lava de Pompéia”. No filme, a imagem representa uma força inevitável, associada ao avanço da Inteligência Artificial e à substituição do fator humano, artístico, histórico e crítico por processos automatizados.

Durante o clímax do enredo, Miranda Priestly (Meryl Streep) conversa com Benji Barnes (Justin Theroux), possível comprador da revista fictícia Runaway, sobre o futuro da publicação. Ela tenta preservar a identidade editorial da revista e evitar mudanças drásticas após a compra, mas recebe uma resposta não tão positiva. É nesse momento que Barnes usa a “lava de Pompéia” como metáfora para afirmar que as transformações tecnológicas já estão avançando e vão mudar (ou paralisar) toda a indústria, independentemente da resistência de figuras tradicionais do Jornalismo como a Priestly.

A referência vem da cidade italiana (Pompéia) destruída pela erupção do vulcão Vesúvio, no ano 79 d.C. O avanço da lava cobriu e imobilizou tudo o que encontrou pelo caminho, tornando-se símbolo de uma destruição inevitável.

A partir disso, surge a dúvida: o jornalismo está prestes a virar Pompéia? E será que o mercado já passou a tratar o avanço dessas tecnologias como um processo irreversível? Antes de responder, porém, é preciso entender de onde vem esse magma.

Erosão Cognitiva

O teórico Marshall McLuhan, que se aprofunda no axioma de que “o meio é a mensagem”, explica que o meio tecnológico molda o pensamento e a sociedade mais do que o conteúdo que ele veicula. Então, a partir desse pensamento, as IAs não são apenas um novo canal, são um novo meio algorítmico que impõe novos padrões cognitivos e reestruturam a forma como percebemos a informação. No filme (e no mundo jornalístico atual), o meio deixou de ser a revista Runaway e passou a ser esse algoritmo que dita o que é tendência, dispensando toda a liberdade de expressão do comunicador que ainda tenta criar num mundo automatizado.

Mas seria muito pouco citar apenas essa ideia de McLuhan, quando podemos falar de uma “lava tecnológica” que está chegando em todas as redações: o pensamento de que toda extensão é uma amputação. Embora a Inteligência Artificial seja um avanço tecnológico, que amplia radicalmente nosso sistema nervoso e nossas capacidades cognitivas, nos fazendo aprender novas habilidades para estar sempre por dentro dessas mudanças, ainda existe uma “amputação” ou atrofia das habilidades que delegamos à máquina. E é aí que entramos numa erosão cognitiva. 

Quando deixamos de ter pensamento crítico, criatividade humana, sentimentos, personalidade, originalidade na criação e produção e passamos a depender de um robô que pensa, age, cria e dita por nós (e para nós); automatiza a escrita, a análise e, consequentemente, paralisa a inovação sob uma camada de padrões estatísticos.

Ou seja, na sequência, o bilionário do Vale do Silício, que vislumbra um futuro onde revistas não precisarão mais de redatores ou modelos, pois tudo será gerado automaticamente por inteligência artificial, está mais do que satisfeito em ver a lava chegar, mesmo que isso implique num detrimento do jornalismo e da autoridade humana.

Da autoridade humana ao domínio invisível

No primeiro filme (2006), era nítido que o poder vinha da autoridade, influência e prestígio de Miranda. Era dela que todos tinham medo, de sua opinião, de seus comentários e de como ia se posicionar perante os desafios do mundo da moda. Mas, duas décadas depois, a sequência traz um novo medo, e não só para quem faz parte do mundo da moda, mas para todos os jornalistas: o domínio invisível dos dados, métricas das redes sociais, tendências que surgem e desaparecem do nada – de tudo que interfere diretamente na criatividade do comunicador, mas que não é palpável.

O poder, que antes era centralizado na editora chefe da revista, agora é difuso e silencioso, manifestado através de algorítmos de Deep Learning que operam como uma “caixa preta” (opacidade algorítmica), em que as decisões editoriais são tomadas sem que o usuário compreenda totalmente a lógica por trás dela. Em que antes havia curadoria e experiência, agora há engajamento, cliques e performance orientando o que deve ou não ser publicado.

E é por isso que, no filme, os artigos de Andy Sachs (Anne Hathaway) não recebem engajamento, porque não estão dentro das métricas, não são curtos o suficiente, não vendem, não atingem as expectativas dos anunciantes – porque seguem as métricas de quem escreve, não as algorítmicas.

A métrica “suga a alma” do conteúdo

Na sequência, Andy lamenta como as corporações estão retirando a essência (“alma”) de tudo o que é autêntico, criativo ou com propósito, transformando conteúdos valiosos em algo genérico. As corporações tecnológicas estão “sugando a alma de tudo e reempacotando”.

Os dados do Relatório de Tendências e Previsões para o Jornalismo em 2026, do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, preveem uma queda de mais de 40% no tráfego de busca para sites de notícias nos próximos três anos, devido às respostas geradas por IA. As famosas “IAs Overviews” são bons exemplos de “reempacotadoras”. Esses resumos gerados por IA afetam drasticamente sites focados em estilo de vida, moda, cultura, artes e até notícias gerais. Basicamente, tudo aquilo que, antes, passava por um projeto de criação, agora é resumido no topo da página do Google.

E é esse “gutting”, que Andy denuncia: esvaziar ou destrinchar conteúdos de qualidade para compactá-los em formatos superficiais, rápidos e virais, que estão sempre alinhados com o mercado e com anúncios. E por isso, Emily Charlton (Emily Blunt), agora, no filme, como uma executiva da Dior, comenta em uma reunião que a revista depende dos anunciantes, sem eles, não existe Runaway.

O Jornalismo criativo, de serviço, ou qualquer outro segmento dele sempre dependeu do mercado, dos patrocinadores. Mas agora ele não depende apenas desse tipo de mercado, ele precisa se vender para ter reconhecimento, seguir as regras dos algorítmos para ganhar engajamento e, com isso, algum tipo de relevância num mundo digital lotado de informações. 

O protagonismo humano ainda é a única saída

Embora o curso da lava seja voraz e em direção ao Jornalismo atual, existe uma coisa que ela não pode cobrir. As inteligências artificiais não podem (não conseguem) replicar elementos essencialmente humanos como intencionalidade, consciência, julgamento ético, imaginação, criatividade e sentimento. 

A Pompéia digital assusta, até porque as tecnologias não vão retroceder. E é exatamente por isso que negá-las seria hipocrisia, um pensamento distópico. A saída é uma autoria híbrida, na qual o ser humano fornece o “prompt inicial e a palavra final”, mantendo o protagonismo nas decisões de concepção.

O Jornalismo só se tornará Pompéia se permitir que a eficiência algorítmica substitua o propósito humano. Como Andy Sachs declara no filme, o diferencial reside em provar que, mesmo em um mundo automatizado, “o Jornalismo ainda importa”. 

________________________

O artigo acima foi editado por Luiza Kellmann.

Gosta desse tipo de conteúdo? Confira a página inicial da Her Campus Cásper Líbero para mais!

Estou no primeiro semestre de jornalismo da faculdade Casper Líbero. Gosto de gravar vídeos, de moda e de escrever.