Antigamente, a palavra “rotina” era associada ao tédio e à monotonia. Com o avanço das redes sociais e a consolidação do TikTok como principal formador de tendências, a disciplina se tornou desejável. Vídeos de universitário expondo seus cotidianos produtivos e esgotantes acumulam milhares de visualizações. Mas afinal, em que momento o dia a dia deixou de ser sinônimo de tédio e se tornou um de produto?
Jovens com alta condição financeira dominam boa parte desses conteúdos, apresentando como modelo de produtividade um cotidiano que depende, antes de tudo, de dinheiro. Academia, cafeterias, aulas de idiomas; toda essa proatividade é real, mas para alcançá-la é necessária uma base financeira que poucos têm.
No outro extremo do feed, outro tipo de rotina viralizada. Estudantes que dormem poucas horas, pegam dois ou três transportes, trabalham e ainda arcam com responsabilidades domésticas. Essa instabilidade, frequentemente, é lida pela audiência como uma prova de força de vontade. A problemática dessa narrativa é que essa força de vontade na verdade é uma ausência de escolha. Esse cria um ambiente onde a meritocracia se impõe e a ausência de políticas estudantis concretas, como moradia, bolsas e transporte, deixa de ser problema coletivo para virar falha individual.
O que o feed entrega como inspiração é, na prática, a normalização do esgotamento. O problema não é a rotina em si, mas como a precarização de jovens se tornou filmável e rentável. Enquanto o cansaço render monetização e visualizações, dificilmente o problema será lido como falha política e não individual.
O Artigo abaixo foi por Leticia Carmo.
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