Her Campus Logo Her Campus Logo
Casper Libero | Culture > News

O Irã será uma democracia? Entenda o que pode acontecer com o país após a guerra

Isabella Scaramucci Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

“O Irã não precisa ter, necessariamente, um líder democrático no comando; só precisa ser alguém que trate bem tanto os EUA e Israel quanto as pessoas no resto do Oriente Médio”.

A declaração foi feita em entrevista à CNN, no dia 6 de março, por Donald Trump – presidente dos Estados Unidos, que, em fevereiro e em conjunto com Israel, iniciou ataques coordenados contra o território iraniano.

Os bombardeios do dia 28 em Teerã mataram o aiatolá Ali Khamenei, que ocupou, por mais de 36 anos, o posto mais poderoso do regime político do Irã, a República Islâmica, como líder supremo político e religioso.

No dia seguinte, 1º de março, conforme as leis constitucionais, foi formada a Assembleia dos Peritos. O órgão é composto pelo presidente Masoud Pezeshkian, pelo chefe do Poder Judiciário Gholam Hossein Mohseni Ejeie, e pelo clérigo Alireza Arafi, que juntos assumiram provisoriamente as funções do líder supremo.

No dia 8, o sucessor foi escolhido: Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, tornou-se o novo aiatolá da República Iraniana. A nomeação rápida e anticonstitucional do novo Líder Supremo, mesmo que sorrateiramente, deixa a entender que o conflito entre o país, os EUA e Israel está desafiando a integridade e a continuidade do regime político.

Dessa forma, surgem dúvidas: o que acontecerá com o país no pós-guerra? Quais são os cenários possíveis? E, ainda, seria possível e ideal a instauração de uma democracia, como nós conhecemos, após 47 anos de regime?

O Regime Iraniano

A Revolução Iraniana, liderada pelo aiatolá Khomeini – antecessor de Ali Khamenei -,  reestruturou o regime político da nação persa ao substituir a monarquia por uma teocracia, a República Islâmica.

Em uma teocracia, a política se mistura com a religião, em que tudo parte de princípios religiosos; a autoridade política é vista como emanada de Deus, e as leis civis são baseadas na lei divina.

No caso do Irã, há uma peculiaridade que é explicada pelo artigo “Política Externa E Movimentos Sociais: Uma Análise Da República Islâmica Do Irã”, escrito por Dra. Camila Hirt. Segundo a tese, a República Islâmica não é uma teocracia “pura”, mas sim um modelo de governo híbrido, envolvendo elementos republicanos e democráticos.

Isso implica que o país ainda possui instituições dependentes do voto popular, como o presidente, o Parlamento, a Assembleia dos Peritos e os conselhos municipais, escolhidos pelo povo a cada quatro anos. Dessa forma, o Estado se moderniza e busca legitimidade popular.

No entanto, a Dra. Hirt salienta que toda a política republicana ainda permanece sob a tutela religiosa islâmica. As eleições, por exemplo, têm seus candidatos à presidência e ao Parlamento filtrados e considerados elegíveis pelo Conselho – órgão coordenado pelo Líder Supremo – de acordo com o nível de lealdade deles ao islamismo.

Quando eleitos após a aprovação do Conselho, os candidatos não podem usufruir da posição política livremente; eles ainda estão sob a influência do Líder Supremo, denominado de Aiatolá. Este é o chefe das forças-armadas, possuindo autoridade sobre todas as demais instituições políticas do país.

Esse hibridismo, segundo a tese e a Constituição, surge pós-revolução de 1979 e defende uma soberania compartilhada entre Deus e o povo. Foi uma estratégia pensada para atender tanto à nova elite política quanto aos setores seculares iranianos, e para conseguir lidar com um sistema internacional cada vez mais globalizado e influente sobre o país.

Portanto, se a política iraniana possui elementos republicanos e democráticos coexistindo, mas que na prática estes são controlados pela religião e, por isso, limitados, então qual é a necessidade da parte não-teocrática da República Islâmica?

É o que os artigos “Rethinking Structure and Agency in Democratization: Iranian Lessons” (“Repensando Estrutura e Agência na Democratização: Lições do Irã”), de Mojtaba Mahdavi, e “O recrudescimento religioso na Revolução Iraniana e suasconsequências sociais e internacionais”, de Raul Martins Paniaga, estudam.

Os artigos argumentam que os elementos republicanos e democráticos da política iraniana servem tanto para sustentar a República Islâmica quanto para possibilitar que o Estado se industrialize e se modernize.

Mahdavi explica que a Constituição de 1979 viabiliza a participação política das elites e da sociedade civil por meio do voto. Nisso, diferentes ideologias políticas passam a coexistir no regime e, então, de concorrerem entre si, impedindo uma aparente rigidez política no sistema.

Segundo ele, não há um partido centralizado, e os grupos são classificados com base na divisão teocrática-republicana e a inclinação econômica esquerda-direita. Nisso, surgem então quatro posições políticas na elite iraniana: a direita teocrática e a republicana, e a esquerda teocrática e a republicana.

A primeira dimensão se refere à fonte de legitimidade do poder: de um lado, a autoridade divina, e de outro, a soberania popular. Já a segunda se refere ao papel do Estado na economia, especificamente se ele deve redistribuir as riquezas ou valorizar o livre mercado.

Esse “pluralismo” foi pensado para gerar crises internas e absorver pressões sociais, evitando que o regime colapse. Entretanto, o autor salienta que ele ainda é limitado, pois as candidaturas ainda dependem do aval do Conselho dos Guardiões, o que marginalizou a esquerda republicana por não atender aos critérios de elegibilidade.

Por outro lado, Paniaga afirma que a presença de elementos republicanos e democráticos na Constituição também foi resultado de uma necessidade prática: a da globalização. Segundo o autor, o Irã adotou esses elementos para que pudesse obter progresso técnico-científico e militar.

Dessa forma, o país ainda conseguiria se relacionar com os demais, acompanhar a geopolítica contemporânea, e ter a sua política voltada ao seguimento da religião muçulmana.

O Liberal Como Possível

Se o liberalismo é escasso no regime do Irã e, por isso, a população não consegue exercer totalmente a sua cidadania, então o fim da República Islâmica e o início de uma democracia liberal seria o cenário político pós-guerra desejado pelos iranianos? E, ainda, este seria possível?

É o que o Dr. Gunther Rudzit, doutor em Ciência Política na área de Segurança Internacional e professor de Relações Internacionais na ESPM, discorre sobre, em entrevista.

Segundo Rudzit, a implementação de uma democracia liberal no Irã seria muito difícil, enquanto o regime tiver forças para se manter no poder e contar com instrumentos de repressão –  como as forças Basij, uma força paramilitar voluntária da Guarda Revolucionária do Irã – e que o país inclusive o país já tenta, a todo custo, permanecer com o atual regime.

O professor cita a nomeação de Mojtaba Khamenei como Aiatolá como um exemplo desse processo. Segundo ele, Mojtaba não teria tido o estudo e preparo religioso constitucionalmente necessário para o cargo, colocando-o como um candidato não tão adequado ao posto de Líder Supremo.

Entretanto, este ainda foi nomeado por conta da atuação da Guarda Revolucionária, que impôs a visão de que só Mojtaba seria capaz de garantir a manutenção do regime no poder.

O professor adiciona que a implementação de uma democracia liberal só não seria impossível caso o país estivesse em um grande caos econômico e social, o que geraria revolta e protestos por parte da população que pudessem deter as forças de repressão.

Ele argumenta que isso se deve ao medo que permeia os membros do regime – do Aiatolá àqueles que atuam nas ruas reprimindo a população – diante da possibilidade de queda da República Islâmica, já que eles e suas famílias poderiam ser alvo de represálias violentas pela população que é contra a conjuntura atual.

Ainda que pudessem haver mudanças no regime político, Rudzit afirma que essas ainda estariam longe de levar o país a uma democracia liberal. Isso porque a concepção que temos de liberalismo e democracia é de base ocidental, e por isso, não faz parte da cultura árabe.

Segundo o doutor, quando houve a queda do Império Otomano, seguida da formação dos estados modernos no Oriente Médio em 1921, se esperava uma ocidentalização da política da região, em especial a criação de instituições para limitar o poder do executivo; entretanto, essa visão de democracia representativa nunca esteve ligada à cultura árabe, muito menos muçulmana.

Ele diz que essa peculiaridade cultural se torna clara ao observar a política iraniana. A República Islâmica, dentre os regimes das nações do Oriente Médio, é o mais permissivo e que possui mais representatividade da população, em que foi criada uma república parlamentarista com diferentes partidos políticos.

Entretanto, essa característica ainda não segue a lógica ocidental de democracia, pois o regime ainda seguiria uma lógica de ideologias políticas, voltada ao islamismo xiita.

Isso não impede, no entanto, da população querer mudanças – e isso é o que efetivamente ocorre internamente no país. De acordo com Rudzit, nas últimas eleições presidenciais que ocorreram no Irã, 55% dos eleitores votaram no candidato reformista, que é o atual presidente.

Essas reivindicações da população só não estariam relacionadas à implementação de uma democracia nos moldes ocidentais, mas sim de melhorias na qualidade de vida dos cidadãos.

Os Cenários Pós-Guerra

Sabe-se que a implementação de uma democracia liberal e representativa no Irã é uma possibilidade distante. A tendência, então, é a de o regime tentar se manter a qualquer custo, por mais que o governo iraniano esteja com receio da população – descontente com a conjuntura econômica do país desde após a guerra de 12 dias contra Estados Unidos e Israel, em junho de 2025 – e já preveja problemas com ela.

Um indicador disso, segundo o professor Gunther Rudzit, é o fato da milícia armada do Irã convocar jovens a partir de 12 anos para patrulhar as cidades armados e manter a estabilidade do regime; essa informação, inclusive, já virou notícia em veículos como O Globo, UOL e CNN.

Rudzit também cita a possibilidade de a República Islâmica sobreviver sem a necessidade de repressão, o que ele considera difícil. Em contrapartida, ele destaca um outro possível cenário político: o de uma guerra civil, especialmente se houver interferência externa ajudando a derrubar o regime.

Ele explica que esse risco se deve a uma acirrada diferença ideológicas entre os iranianos. Como apontado anteriormente, nas últimas eleições para presidente, 45% da população votou no candidato conservador, enquanto 55% no reformista, mostrando que o país está profundamente dividido e que há uma forte polarização interna.

Essa característica é acentuada por um outro dado trazido pelo professor: entre 50% e 60% da população iraniana possui menos de 30 anos.

Esses jovens formam a maioria da população e, por não possuírem perspectivas de melhora de vida – ainda mais com o atual conflito bélico entre o Irã, os Estados Unidos e Israel, que piora a situação econômica interna – e, por terem contato com o mundo externo pela internet, manifestam o desejo por mudanças.

Dessa forma, Rudzit afirma que tanto o Irã quanto as monarquias do Golfo temem que ocorra uma guerra civil, em que metade da população reivindica mudanças, enquanto a outra deseja a manutenção do regime.

Essa seria a segunda geração de jovens que, revoltados com a conjuntura política e social que se encontram, e dispostos de rápidos meios de comunicação e de informação, lutariam contra o regime político do país; a primeira teria sido em 2011, dando início à Primavera Árabe.

Portanto, a possibilidade de uma guerra civil não seria uma hipótese nova na geopolítica da região, já que ocorreu anteriormente na Síria; o conflito, que evoluiu do contexto da Primavera Árabe, se deu a partir do momento em que parte da população recebeu apoio externo, sobretudo armamentos, para enfrentar o governo de Bashar al-Assad.

O Conflito Com o Ocidente

Sabe-se que a instalação de uma democracia após o conflito do Irã contra Israel e os EUA encerrar é um cenário praticamente impossível de acontecer.

Foi difundido nas redes sociais que a guerra teria sido iniciada, por parte de Donald Trump, para acabar com o regime autoritário do Irã e “salvar” a população de uma ditadura, sobretudo após o assassinato do Aiatolá Ali Khamenei no início do conflito.

Entretanto, ainda segundo Gunther Rudzit, nem os Estados Unidos nem Israel demonstram ter como prioridade uma transição organizada de regime político no país persa. Em sua visão, essa seria, na verdade, o enfraquecimento das capacidades estratégicas e dos aliados do Irã, e uma eventual reforma de regime para um que seja pró-Ocidente.

O professor explica que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tem a intenção de fazer um Regime Change – como ficou conhecido após a invasão de Bush dos Estados Unidos no Iraque e mudar o regime do país – no Irã.

Isso se deve ao fato de que o Irã é considerado a maior ameaça à existência de Israel,  percepção que também se dá no sentido inverso; desde 1979, o país declara Israel como um risco, além de ter buscado desenvolver armas nucleares, uma vez que enriquece urânio a 60% de pureza.

Assim, o intuito israelense de reformar a política interna do Irã se dá não só pela crença de que este poderia ter um regime mais democrático, mas também porque se buscaria instalar no país persa, sobretudo, um regime não-teocrático, em que as decisões políticas e a visão de mundo são baseadas na religião.

Com isso em mente, Rudzit afirma que Benjamin Netanyahu, para obter apoio, teria convencido o presidente Donald Trump de que uma ação militar no Irã – capaz de eliminar não só Ali Khamenei, mas toda a liderança do país – faria com que aqueles que sobrevivessem no poder aceitassem negociar com os Estados Unidos e Israel.

Isso não só transformaria a nação iraniana em um quase aliado americano, mas também eliminaria um dos principais fornecedores de petróleo para a China –  assim como ocorreu com a Venezuela – gerando impactos econômicos e geopolíticos relevantes para o país asiático.

Como a operação estadunidense foi rápida, fácil e bem-sucedida no país latino-americano, segundo o professor, Donald Trump teria acreditado que a investida no Irã seguiria a mesma lógica, mas acabou se tornando mais complexa do que o previsto, criando uma forte crise política em escala global.

Rudzit completa que, mesmo que Donald Trump venha a anunciar o fim dos ataques nas próximas semanas, o Irã não liberará o Estreito de Ormuz; isso porque a nação iraniana não estaria lutando apenas militarmente, mas, na verdade, travando uma guerra econômica.

Isso se daria por meio de uma estratégia que gera impactos globais e pressiona a economia americana, enfraquecendo o governo de Donald Trump, especialmente em um contexto eleitoral.

Nesse cenário, os eleitores, insatisfeitos com a política externa agressiva e com as consequências econômicas e sociais, tenderiam a deixar de apoiar o governo, o que pode levar, inclusive, à abertura de um processo de impeachment contra o atual presidente.

O desfecho do conflito e o que acontecerá com os países envolvidos na guerra ainda são incertos. A única certeza, além de que o Irã não se tornará uma democracia, é a de que se trata de uma guerra por escolha, que está tendo custos econômicos não só para os envolvidos, mas também para o restante do mundo.

——————————————–

O artigo acima foi editado por Beatriz Tomagnini.

Gosta deste tipo de conteúdo? Confira a página inicial da Her Campus Cásper Líbero para mais!

Isabella Scaramucci

Casper Libero '28

From Teresina - Piauí to São Paulo, journalism student of Casper Líbero institution.