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Não Existe Planeta B: O que De Fato Pode Mudar o Futuro ?

Nina Simonetti Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

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O planeta vai sobreviver?” Tempos atrás, costumávamos nos fazer esta pergunta.  Atualmente, temos o conhecimento de que a Terra sobreviveu a extinções em massa, a vulcões e a eras glaciais. O questionamento real é um pouco mais profundo: em que condições humanas continuaremos nela? O chamado“ponto de não retorno” é o momento crítico em que um sistema ultrapassa o limite a partir do qual não consegue mais se recuperar. Os cientistas têm debatido há décadas onde exatamente está esse ponto. Bom, o fato é: está mais próximo do que nunca.

Durante muito tempo, a crise climática foi tratada como um problema do futuro, de um amanhã distante o suficiente para ser ignorado. Mas esse amanhã já chegou. E não existe uma segunda chance, não existe um planeta B aguardando enquanto destruímos este que vivemos hoje.

O ESTADO REAL DO PLANETA

A floresta amazônica é crucial para o equilíbrio global, regulando o clima e abrigando a maior biodiversidade do planeta. Porém, só em 2024, a área degradada da região foi cerca de 25.023km² – maior que o estado de Sergipe. Essa degradação aumentou 163% entre 2022 e 2024, um dos fatores principais que intensificam o aumento das taxas de temperaturas e a perda da biodiversidade local.

  • As variações de temperatura não são mais somente conversas de elevador. Os dados são fatos e comprovam o choque: 2023, 2024 e 2025 foram os três anos mais quentes já registrados na história. Em 2024 a temperatura média do Brasil foi de 25,02°C, recorde histórico desde 1961;
  • Quanto à fauna e à flora, a floresta amazônica abriga cerca de 30% da biodiversidade do planeta. Nos últimos anos, a perda de biodiversidade de aves, causada pelo desmatamento, é cerca de 60% superior ao que se havia estimado;
  • O cenário catastrófico não se limita somente às áreas florestais. Segundo estudos das taxas de reciclagem de plástico, apenas 9% do plástico global é reciclado. A projeção estimada é que os dados de poluição plástica aumentem quatro vezes até 2050;

Com a degradação da floresta amazônica, cientistas indicam um “ponto sem retorno”, no qual a Amazônia se transforma em savana irreversivelmente, voltando-se unicamente para a emissão de CO2. Como consequência, o agravo das variações de temperatura. Somado à isso, sem floresta, haverá uma seca agrícola em escala nacional, não só ambiental. 

A perda de biodiversidade também não é somente estética, implicará em uma perda irreversível do conhecimento. Com a extinção de espécies, os compostos medicinais, as pesquisas farmacêuticas e as biotecnológicas terão de ser paralisadas definitivamente.

A análise deve ir para além dos dados. O que esses números indicam é a gravidade do cenário: a amplificação da crise climática, da crise alimentar, da crise hídrica e da crise sanitária, tudo ao mesmo tempo.

JUSTIÇA CLIMÁTICA

Todo esse cenário catastrófico ocorre em um contexto em que somente 0,04% da assistência climática global têm igualdade de gênero como foco principal, o que, para nós mulheres, torna a preocupação ainda mais direta e urgente:

  • Há um aumento de quase 5% em casos de violência entre parceiros íntimos a cada 1°C de aquecimento global. Além de um aumento de quase 30% em casos de feminicídio durante ondas de calor extremo;
  • 236 milhões de mulheres podem enfrentar fome e insegurança alimentar até 2050, como resultado da crise climática, junto à 14  vezes mais probabilidade de morrerem após um desastre natural em comparação a homens.

GREENWASHING: A MENTIRA DO VERDE

A produção verde surgiu como uma solução prática para os consumidores. As empresas responsabilizam-se em adotar estratégias de diminuição de poluição, como compensação das taxas de carbono e embalagens recicláveis. Tudo que nós, consumidoras, precisamos fazer é simples: começar a usar as tais empresas verdes. Certo? Infelizmente, errado.  

  • A Comissão Europeia descobriu em 2024 que metade das campanhas verdes era enganosa: 53% das alegações ambientais globais fornecem informações vagas ou enganosas e 40% não têm suporte factual;

A gravidade do momento demanda urgências. Já passou o momento de deixar a responsabilidade somentes aos órgãos competentes. A

  • “Eco-friendly”, “100% natural”, “sustentável”, “amigo do planeta” são termos vagos que demandam comprovação com dados e certificação verificável.

O greenwashing não é só uma fraude contra o consumidor, é uma fraude contra o planeta. Cada alegação falsa atrasa uma decisão real, ocupa o espaço de uma marca que genuinamente investe em mudança e normaliza a ideia de que discurso vale o mesmo que ação. 

SENTIR NÃO É FRAQUEZA

Esse cenário tenebroso e catastrófico precisa ser traçado. Não temos um “planeta B”. O medo é natural, sentir é um sinal de que você entende a gravidade. A eco-ansiedade tende a ser mais comum em quem é mais consciente sobre o meio ambiente. Porém, o risco real não é o sentir, é o paralisar. Então, devemos nos atentar a alguns pontos:

  • O agir pode aliviar. Fazer doações, participar de mutirões e se engajar em causas, reduz significativamente a ansiedade gerada por imagens e notícias catastróficas;
  • Limitar exposição a notícias sensacionalistas e redes sociais que só mostram cenários de colapso;

E, principalmente, distinguir o que está no seu controle do que não está. Mas, para isso, o questionamento que fica é: o que realmente podemos – e devemos fazer?  

DO INDIVIDUAL AO SISTÊMICO

O popular debate “individual vs sistêmico” é uma lógica falsa criada para paralisar. A dúvida diante do desastre é mobilizada justamente para confundir e, consequentemente, impedir a ação individual. A resposta certa não é escolher um lado, e sim entender que a mudança precisa de pressão popular para acontecer, e ao mesmo tempo, o consumo individual, é uma pressão sistêmica.

A pressão do mercado funciona e, dada a gravidade da situação, é essencial: empresas se movem quando consumidoras mudam em escala. Boicotes, escolhas de consumo e pressão por transparência têm histórico comprovado de resultado.

Votar conscientemente em políticas ambientais é, também, uma das ações individuais de maior impacto sistêmico, mais do que qualquer mudança de hábito doméstico.

MUDANÇAS REAIS

Você (sozinho) pode mudar o planeta. Mas não como te disseram. A pergunta certa não é mais “o que eu posso fazer?”, é “em que escala estou agindo?” Compras “verdes”e transporte não poluente mudam a conta individual, o voto e pressão mudam a conta coletiva. Acordos globais e transição energética mudam a conta do século. As três escalas são necessárias e nenhuma substitui a outra.

Abrir mão do carro equivale a um impacto de 77 pessoas que começam a compostar. Uma dieta com menos carne bovina reduz em até 75% as emissões alimentares individuais. Uma lei ambiental afeta milhões de pessoas ao mesmo tempo. A substituição de energia fóssil por solar e eólica é, hoje, a medida mais barata e eficiente disponível para reduzir as emissões globais no curto prazo.

NÍVEL POLÍTICO:

  • Sem políticas de incentivos as alternativas individuais não conseguem impulsionar mudança na velocidade que a crise climática exige;
  • Pressão sobre o mercado: Consumidores organizados têm histórico comprovado de forçar mudanças corporativas que nenhuma ação individual isolada conseguiria.

NÍVEL GLOBAL:

  • A opção mais barata e eficiente para reduzir emissões globais no curto prazo é a substituição de energia fóssil por solar e eólica
  • O Brasil comprometeu-se a reflorestar 12 milhões de hectares de terras degradadas até 2030 como parte do Acordo de Paris;
  • Eliminação de subsídios a combustíveis fósseis e precificação de carbono: medidas sistêmicas com maior potencial comprovado de redução de emissões em escala global.

O que muda o futuro não é um simples gesto isolado, é a soma de gestos que viram pressão, que viram política, que viram estrutura. A Amazônia não vai ser salva por canudinhos de papel. Mas também não vai ser salva sem que cada vez mais pessoas entendam por que ela importa, cobrem quem tem poder de agir e façam escolhas que, somadas, constroem um mercado e um universo que não podem mais ignorar o planeta.

Não existe Planeta B. Mas ainda existe tempo, e ele está diminuindo. A questão é o que você vai fazer com o que resta dele.

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O artigo acima foi editado por Gabriela Belchior.

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Nina Simonetti

Casper Libero '29

Journalism student passionate about social issues, politics, culture and entertainment.