No dia a dia, diversas circunstâncias nos levam a experiências sensoriais, que tornam-se então, parte natural do cotidiano. Através das experiências sonoras, a música toma um espaço significativo nas vidas ao redor do mundo.
Segundo o relatório “Engaging with music 2023” da IFPI (Federação Nacional da Indústria Fonográfica), o Brasil lidera o consumo de produções musicais ao ouvirem, em média 24,9 horas de música por semana, enquanto a marca mundial corresponde a 20,7 horas semanais, o que, mesmo que comparado a escala brasileira, ainda representa uma grande incidência da música no cotidiano mundial.
No entanto, com o decorrer do tempo, as formas de se escutar e produzir músicas passaram por diversas transformações: das mídias físicas ao streaming, o mercado musical se reinventa juntamente com seus consumidores e, dentro desse espaço de inovação, surgem as redes sociais, com foco principal centrado no TikTok, como nova forma de se escutar música e, consequentemente, novos propósitos de produção.
Com a popularização do TikTok, o que muda na forma de se produzir música?
Plataformas como o TikTok detém um alto poder de expandir o alcance de qualquer objeto. Nesse cenário, o potencial popularizador de lançamentos musicais duplica, principalmente ao considerarmos o uso de áudios variados em diversos tipos de vídeos como um dos grandes pontos de uso da rede. Nos últimos tempos, pudemos observar dezenas de músicas que tornaram-se “hits” através de publicações no TikTok: Trends, edits, todo esquema que possibilite a repetição constante da música incorpora esse processo.
Os primeiros passos desse processo são orgânicos, muitas músicas escalonaram em sucesso despretensiosamente, mas ao notar como essa ferramenta pode funcionar através de uma fórmula, o propósito da produção musical tomou novos horizontes. Tornou-se então comum que nos deparemos com músicas extremamente parecidas com outras, que também já obtiveram sucesso, seguindo estruturas repetitivas, refrões rápidos e trechos facilmente destacáveis para vídeos curtos.
Dessa forma, a música deixa de ser pensada como um todo, como uma obra complexa e original, e passa a ser entendida como um produto fragmentável e com a função principal de captar a atenção do ouvinte para determinado recorte do todo.
Com isso, observa-se uma possível mudança no próprio processo criativo dos artistas. Em vez de priorizar narrativas complexas ou construções sonoras mais elaboradas, muitos passam a focar em elementos que tenham maior potencial de viralização, como batidas marcantes, letras simples e trechos “chiclete”.
Essa realidade traz à tona um novo debate acerca de uma possível padronização estética no meio musical, no qual a música toma, de certa forma, um aspecto majoritariamente utilitarista e voltado para o único objetivo de obter engajamento: O valor das músicas deixa de estar em seu conteúdo e é transferido para a sua capacidade de lucro e popularidade, o que aproxima a produção musical de uma lógica industrial que não é somente produzida em massa, mas previamente moldada para circulação.
As consequências desses fatores levam a um tipo de “compressão” do valor e da experiência sonora, pois o que antes exigia uma longa duração, e induzia a escuta atenta e reflexão, agora é condensado em poucos segundos de impacto instantâneo e, consequentemente, momentâneo.
E afinal, o que isso muda na experiência do ouvinte?
A forma como o público consome música também sofre alterações significativas. O hábito de escutar canções completas pode ser substituído pelo consumo fragmentado de trechos de 15 a 30 segundos, o que impacta diretamente na relação criada com a música, e acaba por determinar as futuras experiências.
Como fruto desse impacto, podemos perceber que a padronização não acontece somente em nível sonoro, como numa experiência qualquer do cotidiano: ela ocorre no modo de sentir, perceber e entender a música, para além de suas batidas sonoras.
Nesse caso, surge um tipo de “circuito fechado” da música, onde a produção alimenta o consumo e o consumo alimenta a produção: o que é criado é o que é facilmente consumido, e só se consome aquilo que foi criado com o objetivo de circular de forma rápida, supérflua e simplificada.
Existe benefício orgânico nesse cenário?
O uso do TikTok como um instrumento de divulgação cultural carrega seus benefícios,e pode até mesmo impulsionar artistas pouco conhecidos. Por ser uma plataforma amplamente usada, principalmente pela grande massa de público jovem, as chances de um artista independente, ou de projetos experimentais, tornarem-se relevantes, aumenta exponencialmente. Nunca foi tão acessível furar a bolha!
E então, quando usado como abertura de novos caminhos, a ferramenta possibilita até mesmo uma democratização cultural, tanto para quem produz, quanto para quem recebe o conteúdo.
Mas essa ferramenta não pode se tornar uma via de retroalimentação constante, o que causa impactos negativos da liberdade criativa e na circulação constante da pluralidade artística musical.
O artigo acima foi editado por Leticia Carmo.
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