Transformar crises reais ou inspiradas na realidade em narrativas de impacto emocional virou tendência no audiovisual. A nova aposta da Netflix, Emergência Radioativa, conta a história de um acidente que aconteceu em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores encontraram uma cápsula de metal em uma clínica de radioterapia abandonada na Avenida Paranaíba, em Goiânia. O que os dois não sabiam era que o objeto continha 19,26 gramas de Césio-137, material altamente radioativo.
O rastro de contaminação deixado após os dois levarem a cápsula para um ferro-velho traz tensão, um ritmo acelerado e uma dor de perda imensurável. A produção brasileira prende o espectador do início ao fim, mas será que tudo da série é verdade? O que ela opta por deixar de fora?
Realidade vs Ficção
Um dos principais acertos da série está na forma como ela aproxima o espectador para o lado sensível da tragédia. Ela deixa de priorizar explicações muito técnicas, químicas ou políticas, e passa a prender na narrativa, nos personagens e nas emoções. Apelando para a empatia, os episódios revelam o impacto da crise através de quem está vivendo aquilo na pele.
O caos, o medo e a urgência aproximam o público da narrativa de forma intensa. Ao mesmo tempo, a série constrói uma tensão dramática, se distanciando do acidente e ressaltando a realidade caótica vivenciada em Goiânia.
Personagens e as suas histórias
A maior heroína da vida real foi Maria Gabriela Ferreira, retratada pela personagem Antônia. Foi ela quem percebeu que o objeto brilhante era a causa do mal estar entre os moradores e levou a cápsula até a Vigilância Sanitária. Se não fosse por ela, o acidente teria sido muito maior.
Uma das partes mais importantes da série são os protestos no enterro da pequena Celeste, que na vida real era Leide das Neves Ferreira, de apenas 6 anos. No Cemitério Parque, uma multidão de quase duas mil pessoas tentou impedir o enterro da menina e de Maria Gabriela. Indivíduos jogaram pedras, tijolos e protestaram porque tinham medo de que seus corpos contaminassem o solo do cemitério.
A série retrata o medo da contaminação, principalmente, através do preconceito sofrido pelas vítimas. Na época, outros estados evitavam comprar produtos ou insumos de Goiânia. Também resultado do medo e da desinformação, os moradores locais eram vítimas de um olhar infundado, como se estivessem contaminados.
O protagonista Márcio (Johnny Massaro) é um personagem inventado. Ele é uma mistura de vários heróis da vida real, como os físicos, médicos e químicos que lutaram para conter a propagação. A maior inspiração foi o físico Walter Mendes, o primeiro a perceber que as pessoas no hospital estavam com sintomas de radiação. Cenas como a do Márcio sendo mordido por um cachorro contaminado foram introduzidas na história.
O brilho azul do Césio também ganhou um destaque especial: na série ele é forte e reluzente, mas na realidade é bem mais discreto. A cena do bombeiro levando o pacote para ser descartado no rio é uma das mais angustiantes, e o que mais causa incômodo é saber que chegou perto de acontecer: na vida real, um bombeiro quase jogou o material contaminado no rio para se livrar dele, mas foi barrado pela Vigilância Sanitária.
Há quase 4 décadas: o impacto na vida das vítimas
Devair Alves Ferreira, o dono do ferro-velho e interpretado pelo personagem Evenildo, sobreviveu à contaminação, mas a culpa tomou conta. Ele desenvolveu depressão e alcoolismo, levando à morte em 1994, 7 anos após o acidente.
O pai da menina Celeste, Ivo Alves Ferreira, (João na série) também nunca se perdoou por ter levado o Césio para casa. Ele faleceu em 2003, cerca de 15 anos depois do acidente por problemas pulmonares causados pelo excesso de cigarro.
Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, os primeiros a encontrar a cápsula de metal ainda vivem com sequelas graves e amputações até hoje.
Odesson Alves Ferreira (Darcy) é um dos grandes sobreviventes. Ele teve amputações nos dedos e marcas de queimadura, mas transformou a dor em luta. Hoje, preside a Associação das Vítimas e luta para que ninguém esqueça do maior acidente radiológico do Brasil.
O descaso com quem ainda precisa de ajuda
A vida real das vítimas hoje em dia é bem diferente do que é mostrado na série. Marcadas pelo esquecimento, os problemas foram muito além do isolamento e das internações. Quase 40 anos depois, sobreviventes enfrentam uma batalha diária contra a falta de recursos básicos que, no início, eram garantidos pelo governo, mas foram cortados com o tempo.
O caso de Lourdes das Neves Ferreira, mãe da Leide (Celeste), é um dos retratos desse descaso. Em entrevistas recentes ao Metrópoles, ela falou que hoje “não vive, vegeta”. Lourdes passou anos cuidando do marido, e ainda tenta suportar a perda da filha e a destruição da própria casa. Durante anos, viveu com menos de um salário mínimo. Atualmente, a pensão de muitas vítimas está na casa dos R$ 954, um valor que mal cobre os remédios de uso contínuo, que chegam a custar mais de R$ 500 por mês.
“Eu não quero nada de luxo, não. Só quero ter um final de vida digno. Esse dinheiro que recebemos é para comer e comprar remédio, mas parece que ninguém se importa com a gente mais”, disse Lourdes ao Metrópoles.
A série emociona, mas a realidade de Lourdes e de tantos outros sobreviventes em Goiânia é um lembrete de que o desastre do Césio-137 nunca acabou. Ele persiste toda vez que uma vítima precisa escolher entre colocar comida na mesa ou comprar a medicação que a mantém viva.
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O artigo acima foi editado por Eduarda Mahrouk.
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