Recém-chegado ao catálogo da Netflix Brasil, Salve Rosa não demorou para escalar, e liderar, o ranking das produções mais vistas no país, se tornando um dos assuntos mais comentados nas redes sociais, além de ter sido premiado no Festival do Rio. A obra se inspira em polêmicas envolvendo influenciadores mirins e acompanha a história de Rosa, uma criadora de conteúdo cujo cotidiano é atravessado pelas demandas de um canal com milhões de seguidores, gerenciado por sua mãe.
O filme, mostra que o perigo da produção de conteúdo digital infantil não está apenas na internet e nos riscos que esse ambiente pode oferecer, como o cyberbullying e pedofilia, mas também a própria vida da criança, que pode ser negligenciada em detrimento das gravações.
A infância na era digital
É fato que essa realidade não é mais tão ficcional assim, a cada dia vemos mais crianças se inserindo na internet, principalmente como produtoras de conteúdo. Isso porque a geração alfa é nativa digital, conhecedora e consumidora assídua das ferramentas e conteúdos que esse ambiente proporciona.
De acordo com a Secretaria de Comunicação Social (Secom), 93% da população brasileira entre 9 e 17 anos é usuária de internet, o que representa cerca de 25 milhões de crianças e adolescentes no país. O dado evidencia não apenas a ampla presença desse público no ambiente digital, mas também a dimensão do impacto que essas plataformas exercem sobre sua formação, comportamento e, cada vez mais, sobre suas dinâmicas de trabalho e exposição.
Entre a educação e o trabalho
Na rotina de influenciadores mirins que, na maioria dos casos, são gerenciados pelos próprios pais, pode haver uma dificuldade de separar o que é demanda de trabalho e o que faz parte da criação, visto que o papel dos pais é educar a criança, o que envolve impor limites e estabelecer responsabilidades cotidianas.
No entanto, quando os pais também assumem a gestão da carreira do filho, parte das exigências do cotidiano de um lar e da formação de caráter social passam a ser vinculadas a atividades de trabalho. Dessa forma, algumas ordens deixam de ter relação direta com o processo educativo e passam a atender a uma lógica de produtividade e retorno financeiro. As fronteiras entre essas duas esferas tornam-se confusas para as crianças no cotidiano: o mesmo pai que diz “grave um vídeo” é aquele que também diz “arrume seu quarto”.
Esse aspecto mercantil é evidenciado no filme, a criança se transforma em um “mini vendedor”, gerando identificação e credibilidade com o público infantil. Ao longo da narrativa, Rosa frequentemente apresenta produtos e brinquedos em seus vídeos, integrando publicidade ao conteúdo de forma naturalizada. Esse tipo de prática dialoga diretamente com estratégias de marketing voltadas ao público infantil, nas quais a comunicação “criança para criança” tende a ser mais persuasiva. Nesse contexto, a influência deixa de ser apenas entretenimento e passa a atuar como ferramenta de consumo, levantando questionamentos sobre os limites éticos da publicidade direcionada a crianças.
Sem regras, sem proteção
É importante destacar que o debate não se refere ao trabalho infantil artístico tradicional realizado em emissoras de televisão ou produções audiovisuais. Nesses ambientes, ainda que existam discussões sobre os limites dessa atuação, há algum nível de regulamentação, controle e acompanhamento profissional que buscam garantir a proteção de crianças e adolescentes. O cenário observado nas redes sociais, apresenta uma dinâmica diferente.
No caso dos influenciadores mirins, não há regulamentação específica nem fiscalização adequada, e o gerenciamento da atividade costuma ficar restrito ao núcleo familiar, sem mecanismos externos que assegurem o bem-estar da criança. A ausência de limites claros e de regulamentação específica faz com que essa prática, frequentemente, ultrapasse o campo do entretenimento e se aproxime de uma lógica de trabalho.
Nesse contexto, a problemática se intensifica quando a produção de conteúdo deixa de ser uma atividade eventual e passa a se transformar no sustento da família. Nesses casos, a criança deixa de ter autonomia sobre sua participação e pode ser pressionada a gravar vídeos, produzir fotos e cumprir demandas de conteúdo para manter a renda gerada pelas redes sociais. Como retratado no filme, a personagem principal é constantemente pressionada pela mãe a continuar produzindo conteúdo, mesmo quando demonstra cansaço ou falta de vontade.
Assim, a atividade que poderia inicialmente ser vista como entretenimento ou expressão criativa passa a assumir características de obrigação, revelando uma situação em que a criança se torna responsável pela manutenção financeira do próprio núcleo familiar.
Um alerta além da ficção
Diante desse cenário, “Salve Rosa” escancara uma discussão que já ultrapassa o campo da ficção. Em um contexto em que milhões de crianças estão inseridas no ambiente digital e, muitas vezes, atuam como produtoras de conteúdo, consumidoras e até promotoras de marcas, os limites entre brincadeira, exposição e trabalho tornam-se cada vez mais difusos. Sem regulamentação específica e com a responsabilidade concentrada no núcleo familiar, a atividade levanta um alerta: até que ponto a presença infantil nas redes sociais está sendo conduzida como expressão e quando passa a configurar uma relação de exploração?
___________
O texto acima foi editado por Maria Eduarda Barreira.
Gostou desse tipo de conteúdo? Confira Her Campus Cásper Líbero para mais!