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Casper Libero | Culture

Por que o público rejeita finais negativos em mídias?

Beatriz Garcia Toth Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Todo mundo adora um bom final-feliz. Um casamento, um reencontro, um beijo debaixo da chuva. Nos traz esperança de que nossas próprias vidas sejam como os filmes: ficaremos com nossos amores verdadeiros, ganharemos na loteria, teremos o nosso “felizes para sempre”.

Mas o que acontece quando uma narrativa rompe esse caminho esperado? Quando a história decide frustrar a expectativa construída ao longo de horas de envolvimento com personagens e conflitos? O que isso diz a respeito do público que os assiste?

Um exemplo recente dessa reação pode ser visto em “Agente Secreto“. Indicado ao Oscar 2026 pela qualidade da cinematografia, o filme recebeu críticas justamente por causa da morte do personagem central, interpretado por Wagner Moura. No contexto histórico da ditadura retratada na trama, o destino do protagonista é coerente e plausível dentro da narrativa. Ainda assim, a decisão dividiu o público e dominou o debate sobre o filme, muitas vezes sobrepondo-se à crítica política presente na obra. O caso revela um fenômeno recorrente no consumo de produtos audiovisuais: quando a história rompe a expectativa emocional construída com o espectador, a reação tende a ser intensa — e o desfecho passa a ser julgado menos pelo que significa dentro da narrativa e mais pelo sentimento que deixa em quem assiste.

Olhares que ignoram a crítica

Rosa é uma influenciadora mirim, gerenciada por sua mãe Dora. A vida delas parece perfeita… até a segunda página. Um dia, Rosa sofre um desmaio na escola e então tudo começa a ir por água abaixo. As mentiras da mãe, que parecia tão amorosa, são expostas e descobrimos que na verdade ela vem enganando a todos, inclusive a própria filha a respeito de sua idade. Ao longo do filme, Dora é vista injetando remédios na filha para inibir seu crescimento e amadurecimento sexual, portanto, Rosa teria idade para estar cursando o vestibular. No final do filme, Dora injeta entorpecentes na filha, o que leva Rosa a óbito.

O filme traz o debate sobre a exposição e comercialização dos filhos pelos pais na Internet. Likes, fama e dinheiro é tudo o que importa. A criança é explorada e empurrada para uma vida de exposição e rotina de trabalho que ela não tem idade para saber se quer para si. Como o final do filme ressalta, a personagem de Rosa é apenas uma das várias vítimas de exploração infantil que existem no Brasil e no mundo.

As avaliações do filme divergem sobre a percepção do público: No site AdoroCinema o filme está avaliado com 2.2 de 5; já no IMDb está com 6.2/10. Porém dos usuários do google que avaliaram o filme, 73% gostaram da produção. 

Ambos Agente Secreto e #SALVEROSA carregam uma crítica em seu enredo porém trouxeram um final controverso na percepção de parte do público. E essa quebra de expectativa pode afetar em momentos decisivos para a produção como na premiação do Oscar, onde mesmo indicado a 4 categorias diferentes, o primeiro longa não levou nenhum prêmio.

Round 6 (Squid Game, 2021-2023) também é uma produção que é pura crítica social. Mas parte do público não pareceu se importar muito com isso.

Ao final da série, o protagonista se sacrifica para salvar um bebê, tornando a criança o vencedor do jogo. A produção geral critica à injustiça do capitalismo, porém este final com a criança vencendo funciona como um símbolo de esperança e uma quebra no ciclo de violência que é visto ao longo de toda a série. Parte do público, porém, esperava uma resolução mais otimista. Além disso, o criador da série relatou que mudou o final original, o que abriu espaço para mais debates e críticas dos telespectadores.

Produções que apostam na crítica por meio de finais negativos desafiam o público ao sair de uma zona de conforto que é a fórmula pronta dos finais-felizes hollywoodianos. No entanto, quando a mensagem vem através de uma frustração no final, muitos espectadores rejeitam a obra como um todo. Assim, o incômodo, muitas vezes,vira decepção.

Finados Para Sempre

Em geral, produções que terminam com a morte de personagens importantes tendem a provocar forte rejeição do público. A morte, especialmente quando envolve figuras centrais ou muito queridas pelos espectadores, rompe com a expectativa de final feliz e portanto com a recompensa emocional construída ao longo da narrativa.

Desde Romeu e Julieta é sabido que romances com finais trágicos são os piores. São sentidos no nosso âmago como uma traição. Em Um Dia (One Day, 2007), por exemplo, o telespectador acompanha o relacionamento de um casal ao longo de décadas, seus encontros e desencontros e então o filme termina com a morte repentina de um dos dois, deixando a narrativa marcada pela sensação de perda. 

Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007) é um filme baseado em uma história real, onde um jovem decide abandonar a vida convencional para viver em contato com a natureza. Depois de muitos percalços ao longo do caminho, sua busca por liberdade termina em tragédia. Ele morre, sozinho no Alasca. O final reforça o contraste entre o idealismo de viver livre e longe das amarras da civilização e a realidade que não é tão bela e simples assim.

Stranger things (2016-2025) teve um final que dividiu opiniões. Mas grande parte dos telespectadores ficou decepcionado com o final em aberto em relação a personagem Eleven. Tudo leva a crer que, ao final da quinta temporada ela morre… Mas será? Em histórias longas como séries, o espectador acompanha os personagens por anos, criando um certo vínculo. O que ficou como a morte da protagonista costuma ser sentido e rejeitado fortemente pelo público justamente porque nos apegamos aos personagens como se os conhecêssemos. Algumas produções apostam justamente nesse impacto sentimental. 

É o caso de Meu Primeiro Amor (My Girl, 1991) que constrói uma história aparentemente leve sobre infância e amizade, mas termina com uma tragédia inesperada: a morte do personagem Thomas J., causada por uma reação alérgica a picadas de abelha. O choque entre o tom delicado do filme e o desfecho devastador é justamente o que marcou gerações de espectadores.

Finais marcados pela morte não apenas encerram a história, mas rompem o vínculo emocional construído com o público ao longo da narrativa. Quando o espectador é surpreendido com a perda, passa a carregar a história como uma experiência dolorosa. Embora muitas produções memoráveis acabem com morte, nem sempre o público está disposto a aceitar o preço emocional que elas cobram.

Até que o Final nos separe

Outra forma de dividir as críticas do filme é separando o casal feliz, que passa toda a narrativa construindo um relacionamento. A indústria frequentemente apresenta histórias de amor como jornadas que caminham em direção ao “final feliz”, que é o que o público gosta de ver, e que, comercialmente, costuma funcionar. Quando essa expectativa é quebrada, muitos espectadores têm a sensação de desilusão e mudam suas opiniões a respeito da obra geral. Passam a referir-se ao filme como uma experiência negativa, muitas vezes resumindo o filme aos últimos e fatídicos minutos que alteram completamente o destino dos personagens.

O musical La La Land (2016) é um exemplo clássico de final agridoce. Ao longo do filme, o público acompanha o crescimento do romance entre Mia e Sebastian, mas também o conflito entre relacionamento e realização pessoal. No desfecho, ambos alcançam seus sonhos profissionais, porém seguem caminhos diferentes. Algo semelhante acontece em Como Eu Era Antes de Você (Me Before You, 2016), por exemplo, a relação entre os protagonistas culmina em uma decisão dolorosa que transforma a linda história de amor em uma despedida definitiva. 

Bom… até os 44’ do 2o tempo

Nem sempre o problema de um final negativo está apenas na tristeza do desfecho, mas na decepção e na sensação de que toda a trajetória construída pela história foi alterada nos últimos momentos. Algumas séries passam anos conquistando o público, desenvolvendo personagens e criando expectativas sobre o destino de suas tramas. No entanto, quando chegam aos episódios finais, decisões narrativas inesperadas podem virar tudo de ponta-cabeça. 

​​Em Dexter, a narrativa sofre essa virada brusca que impacta a trajetória do protagonista e a percepção geral do público sobre a série. Ao longo das oito temporadas, o telespectador acompanha o complexo equilíbrio que Dexter tenta manter entre sua vida familiar e sua identidade como assassino (de assassinos). Tudo parece bem até que duas perdas fundamentais mudam completamente o rumo da história: o assassinato de sua esposa e, posteriormente, a morte de sua irmã. Além de transformarem o destino de Dexter, esses acontecimentos deixaram muitos espectadores chocados e divididos quanto ao rumo escolhido para o final da série.

Outro dos exemplos mais discutidos é o final de How I Met Your Mother. Durante nove temporadas, a série constrói o mistério em torno da mulher que Ted finalmente conheceria e com quem formaria sua família. No episódio final, no entanto, o público descobre que a personagem já havia morrido anos antes dos eventos narrados. A história, então, se revela como uma longa lembrança contada aos filhos, que termina com Ted voltando a procurar Robin. Para muitos fãs, o desfecho desfaz o desenvolvimento de diversos personagens e transforma uma história de amor em uma conclusão melancólica.

Para muitos fãs destas produções, a frustração vem justamente da sensação de que o desfecho contradiz ou enfraquece o desenvolvimento construído ao longo de temporadas inteiras.

Finais Felizes disfarçados

Afinal, a resposta para a pergunta inicial do porquê o público rejeita finais negativos em mídias é bem simples: somos humanos. Isso quer dizer que apesar de tudo temos esperança para o futuro, para o nosso destino. Todo mundo quer acreditar no final feliz.

A nossa rejeição aos finais negativos está justamente nessa fé que carregamos dentro de nós, de que estamos no caminho certo e que tudo, no final, vai acabar bem. E quando não é assim, não aceitamos. Nos questionamos, e aí entra uma pontada de senso de dever e justiça. A mocinha que faz tudo certo e trata todos bem não merece morrer, já o vilão sim. 

Porém a lição que fica é que nem tudo acontece como achamos que deveria acontecer. Como para os filmes, precisamos ter esse senso crítico de perceber o que está por trás do choro, da separação e da morte. Às vezes o que percebemos hoje como negativo, vai se revelar o melhor resultado possível no futuro e vamos agradecer que aquilo se sucedeu assim!

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O artigo acima foi editado por Luiza Kellmann

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Beatriz Garcia Toth

Casper Libero '28

"O que é difícil não é escrever muito: é dizer tudo escrevendo pouco"
Julio Dantas