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Quem mandou matar Marielle Franco: Finalmente o Brasil tem a resposta

Ana Azeredo Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Na madrugada de 14 de março de 2018, o Brasil presenciou um dos casos de maior repercussão no país e de impacto político. Marielle Franco, então vereadora do Rio de Janeiro, foi covardemente assassinada a tiros em uma emboscada. Ela estava em um carro com o motorista Anderson Gomes, que também faleceu, e com a assessora Fernanda Chaves, que resistiu, quando foram alvejados por criminosos que conduziam outro veículo. Durante mais anos o caso seguiu sem respostas significativas, o que gerou revolta e abriu o grande questionamento: “Quem mandou matar Marielle Franco?

Como tudo começou?

Eleita à Câmara Municipal do Rio de Janeiro em 2016 , com a quinta maior votação da cidade, a vereadora do PSOL sempre foi conhecida pela sua voz nas comunidades e luta contra o racismo, desigualdade e violência estatal. Defendendo os direitos de mulheres, população LGBTQIA+, moradores de favelas e pela educação pública, construiu seu legado político tendo como principal pauta a periferia. Além das pautas que já defendia, ao longo do mandato, Marielle também passou a investigar movimentações das milícias cariocas envolvendo casos de grilagem na zona oeste do Rio de Janeiro.

Desde sua morte premeditada, os esforços foram incansáveis para descobrir os autores do crime, assim como para obstruir as investigações. Após oito anos da abertura do inquérito, manifestações e revolta, o Brasil é presenteado com a condenação dos Irmãos Brazão a 76 anos de prisão pelo assassinato de Marielle Franco em 2018. O caso da vereadora, até hoje é sinônimo de justiça, mas também uma prova cabal da corrupção e ganância brasileiras.

O réu confesso: Ronnie Lessa

Ronnie Lessa foi um dos primeiros condenados envolvido no caso após confessar ter executado Marielle e Anderson por meio de delação premiada. Apesar de ter sido membro da Tropa de Elite da polícia militar, o caráter e ambição questionáveis do ex-policial o levaram a migrar para o chamado “Escritório do Crime”, onde, anos mais tarde, o miliciano seria contratado pelo mediador Edmilson da Silva, o Macalé, para assassinar Marielle Franco em troca de 25 milhões de reais, além de alguns terrenos almejados pela milícia.

“Na época, o que me foi dito por algumas pessoas é que ela atrapalharia, que ela entraria no caminho. Então, a questão era: dois loteamentos no bairro do Tanque; um loteamento seria para quem matasse Marielle, e o outro seria para os mandantes”, afirmou o ex-policial.

A cronologia do crime revela um esquema complexo que envolve não apenas o executor, mas também o motorista do carro em que estava Ronnie Lessa, Élcio de Queiroz (ex-sargento da Polícia Militar), e o descarte do carro e das armas em alto mar por Maxwell Simões (ex-bombeiro) e Edmilson Barbosa (empreendedor na zona norte carioca). O que todos os envolvidos no crime compartilham entre si é a ganância comum à milícia fluminense, como comprovou Ronnie Lessa: “Fiquei cego; minha parte eram R$ 25 milhões. Podia falar assim: era o papa, que eu ia matar o papa, porque fiquei cego e reconheço. Vou cumprir o meu papel até o final, e tenho certeza absoluta de que a Justiça será feita”.

Rivaldo Barbosa

A questão é que um esquema tão complexo quanto o tramado conra Marielle e Anderson não pode ter sido executado por apenas um matador de aluguel motivado por ódio, como foi justificado pelo delegado Giniton Lages. O Caso Marielle foi a exposição mais clara da conexão entre políticos e milicianos cariocas, provando que o Brasil está a anos luz de cumprir os interesses de sua própria população.

No dia 13 de março de 2018, um dia antes do assassinato da vereadora e de seu motorista, o general Braga Netto, então Ministro da Defesa do Brasil, elegeu o interventor de segurança pública do Rio de Janeiro, Rivaldo Barbosa, como chefe da Polícia Civil carioca. O cargo possibilitou que o policial interferisse diretamente na investigação do Caso Marielle Franco. Entre as atitudes tomadas por Rivaldo, está a instrução que ele deu aos assassinos para que cometessem o crime longe da Câmara dos Vereadores, garantindo que o atentado fosse investigado pela polícia civil carioca, já que não seria caracterizado como crime político.

Atualmente, o ex-chefe da Polícia Civil está preso na Penitenciária Federal de Mossoró, Rio Grande do Norte, pelo envolvimento em reuniões que planejaram o assassinato e por obstruir as investigações do assassinato.

O caso adquire certo sadismo ao ser revelado que Rivaldo Barbosa foi um dos primeiros representantes do setor público que prestou condolências à família de Marielle. “Muito chocante essa revelação, e com requintes de crueldade. Porque o Rivaldo foi lá abraçar a família, foi dizer que as coisas iam se resolver num momento de dor muito grande. O primeiro telefone dado pelo Marcelo Freixo foi para ele e ele se dispõe a resolver e a gente fica muito chocado. Teoricamente, a gente vive num Estado Democrático de Direito, mas os agentes da lei, ao que consta pra nós enquanto sociedade, parecem estar todos cooptados”, disse Fernanda Vallim, Coordenadora do Núcleo de Ativismo da ONG Rio de Paz, em entrevista ao Brasil de Fato.

Enfim os mandantes: Irmãos Brazão

Dentre as diferentes peças responsáveis por obstruir e desviar o curso da operação, os mandantes do assassinato de Marielle Franco são Chiquinho Brazão, então vereador da cidade do Rio de Janeiro e, posteriormente, Deputado Federal pelo estado pelo União Brasil, e Domingos Brazão, membro do MDB, que ocupava o cargo de Conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro.

Desde a CPI das Milícias, 2008, e a CPI dos Ônibus, 2017, o nome da Família Brazão tem sido ligado ao universo de contravenção carioca, sobretudo à milícia. Fato que, posteriormente, seria comprovado pela delação de Ronnie Lessa. O assassino afirmou que os irmãos teriam inserido um infiltrado no PSOL com o intuito de monitorar Marielle e seu compromisso com as moradias populares, agenda que batia de frente com os interesses de Chiquinho e Domingos que realizavam grilagem para fins especulativos no território.

Ademais, a recompensa prometida a Ronnie Lessa pelo crime não era de posse dos Irmãos Brazão. Mas seria fruto da flexibilização das leis imobiliárias pretendida através de um projeto de lei proposto por Chiquinho à Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. O PL foi aprovado no dia 14 de março de 2018, horas depois do assassinato de Marielle Franco. O poder político e econômico adquiridos através da expansão da desigualdade social, pauta cara à vereadora, motivou sua morte em um dos crimes mais relevantes do Brasil.

Oito anos após o assassinato, o julgamento realizado no Supremo Tribunal Federal pôs fim ao caso em fevereiro de 2026. Após deliberação dos ministros, Chiquinho e Domingos Brazão foram condenados, por unanimidade, a cumprir 76 anos e três meses de reclusão em regime fechado, além do pagamento de R$7 milhões às famílias das vítimas em reparação pelo crime.

Oito anos após o crime,  o Brasil pode enfim bradar: MARIELLE, PRESENTE!

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O artigo acima foi editado por Marcele Dias.

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Ana Azeredo

Casper Libero '29

Nascida no interior de São Paulo,em uma cidade conhecida pelos bons ares, me mudei para a capital há pouco tempo com o intuito de vivenciar a carreira de jornalista, e sigo como paulistana desde então.
A vida no interior me proporcionou experiências de tranquilidade que eu acredito que sejam inexistentes no local mais sereno de São Paulo, mas o constante movimento de pessoas e informações é estranhamente cativante, me sinto assistindo a uma exposição de arte a céu aberto, talvez circundada por ares demasiadamente poluídos, mas a cultura aqui é, de fato, viva e presente.
O caos e a diversidade da cidade resumem meus maiores interesses profissionais, como política, cultura e entretenimento.
Pessoalmente, a escrita me traz pertencimento e repertório em âmbito social, afinal, a comunicação influencia diretamente na maneira como vemos o mundo e reagimos a ele. Sendo assim, minhas vivências se resumem a diferentes formas de comunicação, como filmes, fotos e músicas que me acolhem e marcam cada momento.
Nas reuniões escolares, meus pais ouviam frases prontas como, "ela é boa, mas fala bastante", tais apontamentos poderiam ter me trazido malefícios, mas hoje em dia, diante da crescente desinformação, querer me comunicar e absorver informações corretamente propicia clareza a uma esfera social, majoritariamente, turva.
Acredito também que o dinamismo presente no diálogo entre escritor e leitor é transformador e nós somos, de fato, metamorfoses ambulantes.