Foi no Festival de Cannes de 2025, um dos mais prestigiados eventos de cinema do mundo, que o filme brasileiro O Agente Secreto foi aplaudido por mais de 10 minutos. O longa conquistou destaque global e quatro indicações para o Oscar de 2026.
Você não precisa ser um especialista no assunto para reconhecer que esse cenário nunca foi convencional para o cinema brasileiro. Em quase 100 anos de Oscar, o Brasil conquistou o seu primeiro prêmio recentemente.
Essa disputa do cinema brasileiro no âmbito internacional não é de hoje. O ano era 1975 e Jeca Tatu contra o Capeta surpreendeu com um público de mais de 8 milhões de pagantes. Mesmo assim, não realizou o sonho de todo cineasta da época: disputar audiência em pé de igualdade com o filme exibido na sala ao lado, nada mais e nada menos do que Tubarão de Spielberg.
Na atualidade, mesmo que o filme da sala ao lado venha diretamente de Hollywood, historicamente impositiva na forma de fazer cinema, a audiência foi conquistada de igual para igual. Como isso aconteceu? Quando cenários como O Agente Secreto vencedor do Globo de Ouro de 2026 e indicado ao Oscar começaram a entrar na história do cinema brasileiro?
SPOILER: ISSO É REFLEXO DE UM MOVIMENTO NACIONAL E POLÍTICO
Em 2023 o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou seu terceiro mandato e teve como foco a retomada das relações diplomáticas, e desde então, tornou-se comum ver o Brasil participando em cúpulas e organizando eventos internacionais no país. Essas ações diplomáticas são importantes para que o Brasil consiga defender seus interesses e estabelecer sua legitimidade em termos internacionais, mesmo que com artifícios culturais.
Manter o foco nas relações diplomáticas conforme o governo vigente vem fazendo, e para além disso, se posicionar diante destas, é imprescindível dado o momento atual do mundo, em que vemos conflitos armados, fortes disputas econômicas, tentativas de golpes, e nada disso muito distante do Brasil: existem militares na fronteira do país.
É nesse ponto que o cinema se torna política e um meio claro para diplomacia cultural, um sistema de poder que molda percepções e cria vínculos, há séculos. O governo americano fez isso com maestria durante a Guerra Fria tornando o cinema uma estratégia para influenciar politicamente, por exemplo.
A aliança entre cultura e história mostra que é mais provável que você se identifique com um filme que expõe um posicionamento por meio da arte, do que com um discurso político apresentando o mesmo cenário.
O Brasil entendeu que é mais fácil ser valorizado e visto por meio da arte, do que pelo Fórum. Isto é, é mais fácil o brasileiro entender que o Brasil ganhou um Oscar expondo o período da ditadura do que entender que nosso governo atual têm um discurso político com ideais contra essa mesma época. Isso é o cinema trabalhando na construção da identidade, é o cinema em sua forma mais clara exercendo diplomacia cultural.
Como fruto desse entendimento, o governo prorrogou a Lei do Audiovisual e do Recine, que impactam positivamente em fundos disponíveis para o setor do cinema e disponibilizam um limite de gasto tributário (renúncia fiscal) de R$300 milhões.
E não para por aí: o governo editou também o decreto Cota de tela, que estabelece um número mínimo de sessões com filmes nacionais em salas comerciais, e está trabalhando no projeto mais recente: Tela Brasil, uma plataforma gratuita de streaming com conteúdos audiovisuais brasileiros.
O cinema, nesse novo momento, tem então mais incentivo e espaço, e a diplomacia cultural brasileira se mostra como um mecanismo que ajuda a consolidar os interesses brasileiros lá fora: protagonizar relações diplomáticas.
O INCENTIVO VEM TRAZENDO RESULTADOS
Desde as mudanças econômicas e políticas, o setor exibe bilheterias históricas e uma clara ascensão do cinema brasileiro. O Agente Secreto já soma R$50 milhões, segundo a Ancine. Esse valor supera seu orçamento de R$27 milhões, e reforça a fala do ex-presidente Beto Rodrigues, da Fundacine: “não existe cinema forte sem política pública”.
O Agente Secreto é fruto deste cenário de investimento, é inegavelmente uma super produção com estrutura hiper realista que encanta já no primeiro momento com sua fotografia, montagem e som.
A Evgenia Alexandrova, diretora de fotografia responsável pela reconstrução do visual de 1970, compartilha um pouco do processo de criação em conjunto com Kleber Mendonça, diretor do filme:
“Usamos muitas referências. Ele (o diretor) me enviava imagens, muitas vezes não de filmes, mas simplesmente fotografias. Ele ama tecnologia, ama filmar e conhece muito bem câmeras. Foi ele quem sugeriu usarmos lentes vintage da série B da época, que criaram uma imagem bem única”
Como resultado, o filme exibe um plano de fundo brasileiro muito bem desenhado, a restauração de Recife dos anos 70 impecável e evoca a questão regional de modo muito satisfatório.
Estes são aspectos que reavivam o interesse do público no cinema brasileiro, em especial os próprios brasileiros, e demonstra que o audiovisual nacional tem, sim, muito potencial.
O NOVO MOMENTO DO CINEMA BRASILEIRO
“O audiovisual brasileiro vive um grande momento, fruto de muito talento, trabalho e incentivo”, comentou o presidente Lula em uma publicação no X, comemorando a escolha de O Agente Secreto para o Oscar, e comprovando a estreita relação entre cinema e política.
_________________
O artigo acima foi editado por Ana Azeredo .
Gostou desse tipo de conteúdo? Confira Her Campus Cásper Líbero para mais!