Na Era Digital, a atenção passa a ser disputada entre piadas, memes, disputas triviais e temas sensíveis. Cada dia nasce com uma nova enxurrada de posts. Nada parece importantente ou grave o suficiente.
Essa superficialidade não surgiu espontâneamente. A internet reconfigurou um velho mecanismo de defesa: proteger-se do excesso de estímulos por meio do distanciamento emocional. O sociólogo Georg Simmel chamou essa tendência de “atitude blasé” – uma forma de suportar a sobrecarga mental, deixando de se afetar.
Hoje, esse afastamento se manifesta por meio do humor, como se satirizar absurdos fosse um jeito de seguir em frente. Problemas complexos e cenários delicados viram piada. A ironia vira um mecanismo de mitigar a real importância do que se é comentado, como uma forma de autoproteção.
No meio das discussões sobre o caso do financista e abusador sexual Jeffrey Epstein, fandoms – entre eles os de artistas como Taylor Swift e Beyoncé – se aproveitaram do tema para atacar o grupo rival. Essas fanwars são um episódio entre muitos que mostram como até crimes graves podem virar munição para brigas acaloradas e chacotas banais.
O resultado desse distanciamento é o desgaste da sensibilidade humana, que acaba sendo momentânea, logo dispensada, diante da trend seguinte. A internet blasé é a cultura do momento. A questão é: Como acabamos contentados com a banalização – e por quê?
A ATITUDE BLASÉ
O século XIX estabeleceu-se como um novo mundo, o mundo das máquinas. A Revolução Industrial foi fundamental na transformação da vida cotidiana. Grande parte da população direcionou-se às grandes cidades, buscando uma vida metropolitana. Esse êxodo rural provocou uma rápida concentração da população.
Georg Simmel, sociólogo e filósofo alemão, analisou como essa nova vida urbana afetou a vivência dos indivíduos. A intensificação dos estímulos impostos à população – sons, figuras, pessoas, informações – provocou uma saturação do pensamento humano. A resposta do cérebro foi desenvolver um “escudo” que o protegesse desta sobrecarga: a indiferença, em termos filosóficos, a atitude blasé. Diante dessa exposição simultânea e constante, o mecanismo de defesa tornou-se a distância emocional.
Essa insensibilidade implicou diretamente no convívio social: os relacionamentos e vínculos cotidianos passaram a ser breves e rasos. A cidade, então, acabou produzindo uma sociabilidade paradoxal, na qual a convivência física é constante, mas a emocional é distante.
NO NOVO MUNDO VIRTUAL
Com o passar das décadas, a tecnologia passou a liderar essa intensificação de estímulos. As televisões, computadores e celulares, com seus estímulos de recompensas rápidas, mergulharam a humanidade no novo mundo virtual. A consequência direta foi a potencialização da atitude blasé: uma nova reconfiguração das relações sociais.
A convivência física passa a ser distante, assim como a emocional, apresentando-se como um mecanismo de proteção para a sobrecarga de estímulos constantes. Essa dupla desvinculação permitiu uma maior apatia com o próximo, pois a frieza e a indiferença tomaram espaço para controlar o indivíduo. A realidade atual na internet contemporânea pode ser vista como uma reformulação da atitude blasé descrita por Simmel.
A INSENSIBILIDADE DO UNIVERSO ONLINE
As redes sociais são praticamente ringues de luta. Como mecanismo de defesa para a sobrecarga de estímulos, no mundo virtual, insultos, comparações, rumores e ameaças se tornaram banais e naturais. Esse afastamento físico permitiu um afastamento emocional ainda maior, que abre espaço para disputas imorais e irracionais. É justamente essa lógica de dessensibilização que prepara o terreno para o modo como casos graves passam a ser tratados no ambiente digital.
Pensando no caso recente de Jeffrey Epstein: tem-se exposto ao público inúmeras denúncias de violência, como tortura e abuso. Grande parte das vítimas estão tendo que enfrentar sozinhas a divulgação nas mídias, por isso deve haver uma atenção extra na veiculação do caso. No entanto, dentro dessa dinâmica de banalização promovida pelas redes, até acontecimentos extremamente violentos acabam absorvidos pelo fluxo de entretenimento.
Desde que o caso começou a ser exposto, grande parte da internet se mobilizou para criar memes – alguns fazendo referência a um “glow up” de Epstein – edits vangloriando os supostos criminosos, uma recriação da ilha em jogos online e até para a comercialização de produtos acerca do tema. Assim, o distanciamento emocional descrito no início encontra seu ápice: a violência real se transforma em conteúdo leve, replicável e descartável.
A insensibilidade não para por aí. Os fandoms (grupos de fãs) se unem nas redes para atacar outros artistas, com o objetivo de comprovar a superioridade do próprio ídolo. Em grande parte dos casos, as celebridades não têm brigas declaradas, mas, mesmo assim, são alvos de insultos e ameaças pela rivalidade criada entre os próprios fãs.
Confiantes de que a internet é um mundo sem leis, os usuários se sentem confortáveis em acionar seus escudo individuais em ataques imoral contra o próximo, como entre os Swifties e os Beyhives — que não pouparam farpas ao relacionar de forma irresponsável ambas as artistas às crueldades da ilha e ignorar os reais responsáveis.
Essa competitividade ultrapassa contextos morais. Esse ciclo de ódio generalizado, baseado na vontade de defender a superioridade de seu ídolo, é uma consequência direta do reforço da internet blasé. É uma válvula de escape simples e direta para que os indivíduos possam descarregar a apatia e a superficialidade, seus mecanismos de defesa.
Algumas semanas após a onda de memes muitos já estavam entretidos em algum outro tema. Essa exaltação irônica que releva, naturaliza e até romantiza o sofrimento das vítimas é mais uma comprovação da frieza, da crueldade e da insensibilidade dentro da internet blasé.
A QUESTÃO SOCIAL
Com a intensidade e constância desses estímulos, como apontado por Simmel, a mente humana acabou se acostumando com esse excesso de informação. Há uma saturação do conteúdo – como “sempre mais do mesmo”. Essa naturalização resultante pode dificultar a comoção do indivíduo com cenários mais delicados e drásticos.
Então, para evitar uma sobrecarga, a dessensibilização do indivíduo acabou necessária. Esse ciclo autodestrutivo é um desdobramento da mão humana e dos desenvolvimentos tecnológicos.
A imposição incessante de estímulos constantes coloca em questionamento os riscos sociais, éticos e democráticos.
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O artigo acima foi editado por Luiza Kellmann
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