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Do analógico ao virtual: por que investir na alfabetização digital de idosos?

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Sofia Paiva Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou que aproximadamente sete em cada dez pessoas com mais de 60 anos no Brasil já possuem acesso à internet. Diante de levantamentos como esse, em que a importância da alfabetização é reverberada, é impossível não pensar em como os idosos são pouco preparados para enfrentar diariamente o universo digital. 

Navegar pela internet conscientemente pode ser tão complexo quanto aprender a ler ou escrever. Isso se aplica especialmente à população idosa que, apesar de estar cada vez mais inserida nesse contexto, nem sempre possui o suporte necessário para ser alfabetizada e letrada nas novas tecnologias. Isso gera significativas reflexões sobre quais motivações devem guiar o investimento no reconhecimento de signos que permeiam a esfera digital e no letramento que permite a imersão dos idosos nesse ambiente ainda tão novo para eles. 

As dificuldades enfrentadas por eles para integrar o mundo digital podem ser várias, entre elas estão: a falta de familiaridade com os dispositivos e de apoio familiar, na medida em que muitas vezes os parentes se mostram impacientes quando o assunto é ensinar os idosos a utilizar mecanismos do celular, por exemplo; a sensação de insegurança, devido ao medo de golpes e fraudes; plataformas e equipamentos com interfaces praticamente inacessíveis para pessoas mais velhas, e, por vezes, a baixa escolaridade.

Todos esses obstáculos podem desestimular a população idosa a ativamente fazer parte da vida social no ambiente tecnológico. Tornando-se necessário que aqueles que puderam presenciar o nascimento e desenvolvimento dos mecanismos digitais conquistem também o direito de desfrutar de seus benefícios por meio de medidas tanto governamentais, quanto sociais.

Uma idosa que mostra o desejo de aprender de tantos outros

Maria Tereza de Souza, aos 75 anos, compõe esse grupo e relata que acompanhou a chegada das novas tecnologias em virtude de necessidades cotidianas, em especial, relacionadas ao seu trabalho como professora. “Minha primeira aquisição tecnológica ocorreu em meados de 1994. Minha necessidade prioritária era adquirir uma linha telefônica convencional, financeiramente impossível para um assalariado, o preço era o ‘olho da cara’”, ela relembra.

Maria comenta que, felizmente, com o aparecimento dos primeiros aparelhos celulares, embora considerados produtos de luxo, o preço era bem mais acessível do que uma linha telefônica comum e não demorou muito para se popularizar.

Ela conta ainda que sentiu o peso histórico das novas tecnologias mesmo nos primeiros contatos, mas entendeu seu real impacto apenas no decorrer do tempo: “A tecnologia da comunicação avançou assustadoramente, oferecendo modelos mais atraentes, mais compactos e com múltiplas funções, até que surgiram as redes sociais e, a partir daí, o mundo não é mais o mesmo.”

A revolução tecnológica experienciada por Tereza e seus contemporâneos, porém, era (e ainda é) composta por exemplares que, devido ao seu aperfeiçoamento constante, nunca foram simples de manipular. Sendo assim, o medo de não dar conta de lidar com a novidade, acompanhado pela insegurança constante de experimentar um clique e cometer um erro sem volta, é esclarecido e revela o desejo em auxiliar a população idosa a lidar melhor com esse cenário que já faz parte do seu cotidiano.

Afinal, por que é tão importante investir na alfabetização digital de idosos?

A alfabetização e o letramento digital de idosos são, em conjunto, capazes de tornar familiar um universo de dispositivos e aplicativos que permitem, a quem o domina, desde práticas mais pessoais, como tirar fotos e fazer selfies, até desenvolver atividades mais complexas, entre as quais estão comprar produtos na internet e realizar operações bancárias por aplicativo. Algo que aos poucos possibilita a quebra de estereótipos de idade e o etarismo persistentes na sociedade.  

Além disso, não depender de parentes pouco empáticos ao conquistar a autonomia para a realização de ações, reduzir a suscetibilidade a crimes cibernéticos e a sensação de insegurança em relação a eles, encurtar distâncias geográficas e diminuir a impressão de solidão são elementos que se somam na justificativa da relevância de investir na alfabetização e no letramento digital dos idosos.

Para garantir tudo isso, porém, muito ainda precisa ser feito. Felizmente, o Brasil não está na estaca zero em relação à ampliação ao direito do acesso consciente do universo digital pela população idosa. A Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa aprovou o projeto de lei que cria o Programa Nacional de Letramento Digital para Pessoas Idosas. O projeto altera a Política Nacional de Educação Digital e passa a definir como uma das estratégias prioritárias dessa política desenvolver as habilidades digitais de pessoas idosas com objetivo final de ensinar esse público a produzir conteúdo, se comunicar, usar ferramentas tecnológicas com segurança e resolver problemas no ambiente digital. Ainda que, para virar lei, o texto precise ser aprovado pela Câmara e pelo Senado, cada pequeno passo aproxima essa população da concretização de algo mais permanente e proveitoso.

Ações com caráter independente promovidas por universidades, como o programa USP 60+ da Universidade de São Paulo e a Unidade de Inclusão digital para Idosos (UNIDI) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), além de outros propostos por associações em bairros, permitem que os idosos sejam introduzidos ao processo de alfabetização e passem a dominar os mecanismos digitais. Essas ações são exemplos a serem seguidos, mesmo que muito mais ainda possa ser feito por intermédio legal. Dessa forma, seria permitido, que os idosos convivessem de maneira plena em sociedade, marcando presença não só em ambientes físicos, mas também em espaços digitais. 

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O artigo acima foi editado por Mariana Garcia.

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Sofia Paiva

Casper Libero '28

– Viveu em quatro das cinco regiões do Brasil, sendo elas: Sudeste (Apiaí, Valinhos e São Paulo – SP, além de Pedro Leopoldo – MG); Centro-Oeste (Bodoquena -MS); Sul (Curitiba – PR) e Norte (Belém – PA);

– Estuda na Faculdade Cásper Líbero.