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Malcom X e Martin Luther King: Os dois lados do mesmo ideal

Updated Published
Lívia Nascimento Feitosa Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

É impossível falar de história e cultura preta no mundo moderno sem citar duas personalidades-chave para a ascensão dos direitos humanos da população negra: Malcolm X e Martin Luther King Jr. Entretanto, diversas vezes se faz uma análise rasa a respeito de suas ideologias, discursos e até mesmo vidas pessoais. Por vezes, um é antagonizado e o outro idealizado como herói, mantendo uma imagem que exclui o real significado da luta e união do povo negro no mundo e, principalmente, no continente americano.

A HISTÓRIA DE MALCOm X 

Nascido como Malcolm Little, na cidade de Omaha em 1925, X teve uma infância extremamente difícil. Filho de um casal interracial no auge da segregação norte-americana, enfrentou a pobreza, orfanatos e até mesmo a prisão. 

Seu pai, ativista negro, foi morto num atropelamento e sua mãe foi encaminhada para um sanatório em 1939. Pulando de abrigos e casas de parentes durante o resto de sua adolescência, ele deixou a escola no oitavo ano – mesmo sendo excelente aluno – após professores zombarem de sua vontade de se tornar advogado, dizendo que seria carpinteiro. Já na maioridade, Malcolm foi para a prisão diversas vezes por roubo, tráfico e liderança de gangues.

Enquanto encarcerado, em 1946, se interessou pela fé Islâmica e acabou se convertendo, investindo novamente em sua educação e abandonando vícios. Foi ali que adotou o sobrenome “X”, uma forma do grupo de ativistas se livrar dos nomes que tinham legado escravista. Ao sair, rapidamente se tornou famoso na comunidade negra islâmica, ministrando mosteiros e unindo fé à luta.

Malcolm tinha uma ideologia e um comportamento polêmico para a época: acreditava que para sua libertação, o negro possui direito à defesa e luta armada, não negando a violência e compreendendo que na conquista do direito de plenamente existir, ela deveria ser utilizada: “O homem branco é muito inteligente para permitir que outro alguém venha e ganhe controle de sua comunidade. Mas vocês (povo negro) deixam qualquer um entrar e tomar controle da economia de sua comunidade, controlar suas moradias, educação, empregos e até mesmo comércios, no pretexto de que vocês querem se integrar” declarou X em um de seus mais famosos discursos.

Após conflitos com a Nação Islâmica, grupo que por muito tempo liderou e fez parte, ele deixou a instituição e passou a renunciar os ideais separatistas desse. Passou a viver sob ameaças e ataques até sua morte, porém nunca deixou de acreditar que a liberdade viria da luta.

A HISTÓRIA DE MARTIN LUTHER KING JR

Em janeiro de 1929, em Atlanta, nasceu Martin Luther King Jr. Diferente de X, Martin nasceu numa estável família de classe média, tendo acesso à educação e qualidade de vida. Um excelente aluno, ingressou na faculdade aos 15 anos. Mas esses fatores não impediram que sofresse com o racismo e a segregação racial no sul dos Estados Unidos. Ao viajar para o norte do país, ficou surpreso com o fato de poder comer em diversos lugares e frequentar as mesmas igrejas que brancos.

Essa viagem mudou ainda mais a consciência de King sobre como o negro é visto em sociedade. Adquiriu mais conhecimento e aos poucos começou a engajar na luta por direitos. Esteve no boicote aos ônibus em Montgomery, após a prisão de Rosa Parks, na Conferência de Lideranças Cristãs Sulistas, e chegou a ir para a Índia com sua família para conhecer e receber homenagens como forma de agradecimento por compartilhar a filosofia Gandhiana, de paz, na América. Martin chegou a ser preso em protestos, onde nacionalmente houve aclamação para que o líder fosse liberto.

Seu discurso mais famoso foi feito na icônica Marcha sobre Washington, em agosto de 1963. No palanque, proferiu palavras que ecoaram e marcaram décadas: eu tenho um sonho. O discurso, conhecido como “I have a dream”, lhe rendeu o prêmio Nobel da paz e a aprovação dos direitos civis de 1964 nos Estados Unidos: “eu aceito este prêmio hoje com grande fé na América e uma audaciosa fé no futuro da humanidade” disse ele ao aceitar a honraria.

Mesmo com movimentos mais radicais discordando em pontos da ideologia de King, sua imagem continuou sendo valorizada como símbolo de luta. Em 4 de abril de 1968, ele foi morto por um tiro de sniper logo após um discurso “profético” que fez muitos acreditarem que Martin sabia que seria morto, e teria aceitado seu destino de bom grado, como um tradicional cristão.

A MESMA MOEDA 

É possível observar que o modo de vida de cada um influenciou sua forma de pensar: X, após enfrentar as dificuldades econômicas e a austeridade das ruas. Chegou à conclusão de que a violência, quando parte do negro oprimido por uma sociedade ignorante e segregada, é uma mera forma de legítima defesa. Enquanto King, nascido numa família estável financeira e academicamente, nunca precisou adotar agressividade como meio de sobrevivência.

Logo, quem estaria certo? Quem estaria errado? 

Ambos são produtos de realidades totalmente diferentes, nas quais obtiveram oportunidades e vivências em grande parte, diferentes. Porém, a parte que resta os une de forma mais firme do que qualquer discordância: homens negros, nascidos em um Estados Unidos segregado, que se educaram e passaram a lutar por seu povo ao perceber que ele precisava de lideranças e organização. “Se tratando de não violência, é criminoso ensinar um homem a não se defender quando ele é constantemente vítima de ataques brutais” dizia X. “(…) Mas nós viemos aqui esta noite para sermos salvos daquela paciência que nos faz paciente com nada menos do que liberdade e justiça” disse King.

No fim, ambos foram cruelmente silenciados e taxados como terroristas e criminosos. Martirizados, Malcolm X e Martin Luther King Jr entraram para a história dos homens como símbolo de resistência e influenciam movimentos até hoje. Porque, no final, ainda estamos num mundo onde o racismo e preconceito perseveram escrupulosamente. 

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O texto acima foi editado por Maria Eduarda Barreira.

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