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Casper Libero | Culture

“Não posso gastar mais nada esse mês’’: por que o salário não dura nada?

Isa de Carvalho Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Não posso gastar mais nada esse mês.” A frase que virou rotina no vocabulário dos brasileiros revela as dificuldades financeiras enfrentadas pela população. Com as altas do preço, diretamente relacionadas à inflação – que é o aumento generalizado e contínuo dos preços de bens e serviços – e salários que não acompanham esse ritmo, o poder de compra dos brasileiros tem diminuído a cada mês.

Jefferson Mariano, doutor em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e analista socioeconômico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), explica que o Brasil possui um histórico de inflação elevada. Segundo ele, muitas categorias profissionais não conseguem repor integralmente as perdas inflacionárias, o que acaba gerando distorções salariais.

“A questão da inflação e dos salários é uma disputa entre trabalhadores, empresários e governo”, afirma Mariano. Para o especialista, a reposição depende muitas vezes da capacidade de organização dos trabalhadores de cada categoria. “Mas é muito difícil, poucos setores conseguem a reposição plena. Por isso, a inflação é tão complicada, pois significa uma redução da capacidade de compra, ou seja, uma queda no salário real”, completa.

Com a inflação elevada e salários estagnados, o trabalhador se encontra em um ciclo vicioso: pessoas recorrendo ao crédito, acúmulo de dívidas, corte de gastos essenciais e redução do consumo, o que afeta toda a economia. Segundo levantamento da Serasa Experian, 54% dos brasileiros têm renda mensal insuficiente para chegar até o fim do mês. Questionado sobre tal assunto, Jefferson aponta quais medidas o governo poderia adotar para conter essa inflação.

“O governo federal, o Executivo, o Ministério da Fazenda, por exemplo, tem alguns instrumentos e mecanismos para atuar no sentido de evitar que a inflação dispare. Por exemplo, o governo pode controlar alguns preços, regular lucros, segurar aumentos e estimular setores da economia, promovendo incentivos fiscais. Ele consegue fazer isso porque consegue identificar algumas cadeias de produção com pressão de custos ou preços elevados, adotando medidas para evitar que a inflação dispare.’’

Em tese, esses mecanismos poderiam aliviar a pressão sobre o orçamento familiar. No entanto, para grupos mais vulneráveis, como famílias de baixa renda, o impacto da inflação continua comprometendo significativamente a capacidade de consumo. Essas famílias gastam proporcionalmente mais com o essencial, tendo menos espaço para gastos com lazer e despesas eventuais.

“Os trabalhadores que ganham menos têm um comprometimento maior do salário, por exemplo, no item alimentação. Então, o grupo alimentação e bebidas tem um peso de quase 20% no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor), só que para os trabalhadores que ganham de um até cinco salários mínimos esse peso chega a 33%. Então, por exemplo, com a inflação elevada, aumentando alimentação e bebidas, essas famílias sofrem muito mais”

Diante dessa realidade em que os salários estão cada vez mais comprometidos, o planejamento financeiro se torna privilégio de poucos. Ainda assim, o especialista traz estratégias que podem ser úteis para amenizar o impacto no orçamento familiar: priorizar produtos da época, buscar feiras e sacolões, substituir marcas e, para endividados, consolidar dívidas com juros menores.

Embora a inflação seja medida como um índice geral, nem todos os setores sofrem aumentos na mesma proporção. Algumas parcelas podem apresentar alta de preços mais preocupantes, impactando de forma desproporcional à renda das famílias. Diante disso, questionamos Jefferson sobre quais áreas merecem maior atenção quando se analisa o comportamento dos preços.

“O aumento da gasolina, do combustível de uma forma geral, tem um impacto basicamente em todas as cadeias produtivas. Não só a gasolina, mas os combustíveis como gás de cozinha e a energia elétrica também são muito sensíveis, porque impactam diretamente o consumidor. São itens que as pessoas não têm como reduzir — o consumo já está estabelecido no mês. No caso das proteínas, se disparar o preço da carne vermelha o consumidor rapidamente consegue fazer a troca, vai para a carne branca, vai para o ovo. Mas no caso de energia elétrica e combustível, realmente é bastante complicado.”

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O artigo acima foi editado por Beatriz Tomagnini.

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Isa de Carvalho

Casper Libero '26

São Paulo, 24, journalism student at Faculdade Casper Líbero.