A primeira loja física da marca online Shein será aberta em Paris ainda este ano, levantando um debate intenso sobre como essa chegada pode impactar a moda francesa, podendo ser enfraquecida diante desse cenário. Prevista para o mês de novembro, a inauguração está sendo fortemente criticada por políticos e por algumas organizações de moda, por ter o “poder” de manchar a imagem da moda na França — país referência nesse mercado.
Quais cidades francesas são os alvos da Shein?
O objetivo da empresa de fast-fashion é ocupar espaços dentro de departamentos em 6 cidades francesas: Paris, Dijon, Reims, Grenoble, Angers e Limoges — deixando políticos e varejistas locais preocupados. A marca chinesa anunciou parceria com a Société des Grands Magasins (SGM), o que também não teve uma boa repercussão — a Galeries Lafayette, rede de departamentos de luxo que funciona sob acordo de franquia com a SGM, declarou que é totalmente contra esse movimento, que se opõe às ofertas e valores da rede, que basicamente são a pessoa construir um estilo próprio, com roupas que podem ter uma história e seu faturamento ser um ícone passado de geração para geração.
Muitos influentes franceses se manifestaram, apontando que a Shein representa o oposto literal da filosofia da moda francesa, que é buscar a valorização histórica, principalmente sobre a durabilidade, a “savoir-faire” artesanal. A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, chegou a se pronunciar por meio de um post no Linkedin:
Esta escolha é contrária às ambições ecológicas e sociais de Paris, que apoia o comércio local responsável e sustentável.”
Enquanto isso, Yann Rivoallan, chefe da Fédération de la Haute Couture et de la Mode (FHCM) (ou, na tradução livre para o português, Federação Francesa de Moda Feminina), foi direto ao ponto:
Depois de destruir dezenas de marcas francesas, [Shein] pretende inundar nosso mercado ainda mais massivamente com produtos descartáveis.”
Parlamentares, sindicatos, outras associações de moda e comentaristas também debatem se a instalação da fast-fashion não fragiliza ainda mais o ecossistema da moda local, podendo impactar em outras marcas.
A SHEIN TERIA ESSE PODER?
Para se ter uma ideia, a marca chinesa adiciona em seu catálogo cerca de 7.200 novos itens por dia. Entre os anos de 2022 e 2023, adicionou 1,5 milhão de produtos no mercado americano, sendo em torno de 37 vezes mais do que a Zara e 65 vezes mais do que a H&M.
Por outro lado, alguns defensores desse projeto argumentam que a presença física da loja chinesa responde a uma demanda de consumidores mais jovens e de menor renda, já que a marca produz algumas réplicas de peças das marcas tradicionais — justificando também a escolha pela França, graças a sua influência no mercado global da moda.
LADOS POSITIVOS E NEGATIVOS
Pensando no mercado consumidor, a Shein oferece certa acessibilidade, já que produz roupas baratas e com uma grande variedade, o que possibilita o acesso às tendências para consumidores de baixa renda. Além disso, a abertura das lojas físicas gera empregos diretos no varejo e movimenta o comércio local. A presença da marca nas ruas francesas força as mais tradicionais a repensarem sobre agilidade, preços e canais de comunicação mais diversificados, além do canal de distribuição, deixando de fora um pensamento de exclusividade.
Pelo lado negativo, os riscos são diversos. O principal deles é a forte concorrência para as marcas locais, sendo o preço e a escala das peças os embates maiores. O impacto ambiental e social desse movimento também são gigantescos. Conhecida por sua produção frenética, a Shein produz uma grande poluição por meio de seus descartes exacerbados, enquanto ainda há muitas críticas sobre a falta de transparência da empresa sobre questões trabalhistas e de sustentabilidade. Outro grande ponto é a desvalorização da imagem da moda francesa, associada ao luxo, criatividade e alta qualidade — a ascensão da representante chinesa pode diluir essa imagem histórica.
E como fica essa relação? Ainda não é possível saber se a chegada da loja chinesa em Paris pode destruir a moda francesa, mas ela pode sim enfraquecer segmentos vulneráveis. E mais uma coisa é certa, a abertura da loja física da Shein simboliza uma tensão entre os dois mundos: o da fast-fashion, de alta produção e baixo custo, e o da moda francesa, baseada em alta qualidade e designs que unem a última geração com a tradição. Tudo dependerá de como o país, suas marcas e seus consumidores vão responder a esse novo capítulo.
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O artigo acima foi editado por Mariana Garcia.
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