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Casper Libero | Culture

Infância em alta velocidade: como o digital molda o comportamento de novas gerações

Isabela Miranda Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A infância já não é a mesma de antes. Entre vídeos curtos, notificações e recompensas rápidas, as crianças estão crescendo em um ambiente totalmente digital, onde tudo acontece de forma instantânea. As interações são cada vez mais rápidas, e os estímulos frequentes fazem com que elas estejam em alerta o tempo todo. A geração que nasceu no mundo digital já não brinca e interage mais como antigamente. A curiosidade foi tomada pela pressa, e o espaço físico foi trocado pelo virtual.

Para entender melhor como esse comportamento afeta o desenvolvimento infantil, conversamos com o psicólogo Luiz Nelson Devia Neto, clínico junguiano e arteterapeuta, com vivência na área da assistência social e saúde pública — SUS no Caps Infantil — e, também, contamos com uma breve análise da neuropediatra Marcela Rodriguez de Freitas, secretária do Departamento Científico de Neurologia Infantil da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).

Segundo a neuropediatra, o mecanismo do cérebro que explica isso é o sistema de recompensa: “Ele nos motiva a repetir comportamentos que geram prazer ou satisfação. Uma comida, uma música, uma droga ou esses vídeos curtos, ativam no cérebro circuitos neuronais relacionados ao neurotransmissor dopamina, estimulando um reforço positivo”, elabora Marcela.

Adaptação do entretenimento infantil

Um exemplo desse contexto é o Chico Bento, que saiu dos quadrinhos para se tornar influencer e ganhar perfis nas redes sociais. O personagem que antes incentivava a leitura infantil, agora aparece em vídeos curtos e diretos, evidenciando que hoje em dia tudo precisa prender a atenção do público-alvo em poucos segundos. O Chico da roça, que vivia uma vida de calmaria, deu lugar ao Chico Bento digital, acelerado e adaptado ao ritmo das redes. Reforçando a ideia de que até os personagens clássicos tiveram de se adaptar à atualidade, sofrendo alterações para se manterem relevantes nesse novo cenário digital.

Esse é apenas um dos muitos exemplos de como as crianças estão perdendo a essência de ser e agir como criança. Cada vez mais, o público infantil prefere ficar dentro de casa, imerso em um mundo virtual acelerado e cheio de conteúdos repetitivos, em vez de brincarem juntos, explorando o mundo real e criando memórias fora das telas.

Consequências emocionais e sociais

“A busca pela informação imediata impede com que as crianças encarem sentimentos rotineiros e do cotidiano, como a aceitação, frustração e a grande capacidade de socializar-se e se reconhecer através do outro”, afirma o psicólogo Luiz Nelson Devia Neto.

Essa procura pelo consumo rápido influencia diretamente a forma como as novas gerações crescem e se relacionam. Os desenhos e histórias de antigamente mostravam crianças brincando e vivendo o mundo real, ao invés de pular vídeos continuamente e não se contentar com nenhum. A grande questão para essa faixa-etária é aprender a desacelerar o tempo, brincar com outras crianças e entender a importância de interagir com aquilo que é real e auxilia em seu desenvolvimento, no lugar de assistir a vídeos, muitas vezes sem monitoramento de responsáveis. 

O especialista conclui:

Desta forma, cria-se uma incapacidade de ampliação de repertório, em que cada vez mais se ofusca o brincar, as cantigas de roda e principalmente o ser criança, que é fundamental nos dias de hoje, e, seguramente, sobre pensar em adultos saudáveis

O que mostram os dados

Segundo O Globo, um levantamento realizado pela Hibou Pesquisas e Insights indicou que 54% das crianças assistem a vídeos curtos, com base nos dados deste mês (outubro de 2025). Segundo pais e responsáveis, as crianças passam a maior parte do seu tempo assistindo a vídeos em plataformas como Youtube e TikTok, representando 54% e 41% respectivamente. Em seguida, estão Netflix e Disney+, com 26%, com conteúdos de uma duração maior, como filmes e séries filmes voltados para o público infantil.

“Assim, comparando diferentes formas de exposição à tela, para o cérebro de uma criança, adolescente e mesmo para um adulto, ver vídeos muito curtos é completamente diferente do que ver uma série, desenho ou filme”, declara a neuropediatra Marcela Rodriguez de Freitas.

Dessa forma, fica evidente a diferença do consumo entre vídeos curtos e desenhos. Visto que a segunda opção é construída através de uma narrativa e quase sempre passa uma mensagem, estimulando o senso crítico infantil, enquanto os vídeos curtos são produzidos, muitas vezes, para prender a atenção de quem o consome, tornando a criança refém dos conteúdos curtos e repetitivos.

Os dados apenas reforçam o alerta realizado por Luiz e pela Marcela, de como o consumo rápido de estímulos digitais e o sistema de recompensas, altera diretamente o desenvolvimento emocional das novas gerações e também seu comportamento.

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O artigo acima foi editado por Luiza Kellmann

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Isabela Miranda

Casper Libero '26

Estudante de Jornalismo da Cásper Líbero, apaixonada por contar histórias e aprender o novo.