Entre o folk-pop e a MPB, Ana Caetano e Vitória Falcão construíram uma das carreiras mais sólidas da música brasileira recente. Da simplicidade do Tocantins ao reconhecimento internacional, o duo celebra quase dez anos de estrada com a turnê que marca sua fase mais madura.
Do interior do Tocantins para o mundo
Araguaína, interior do Tocantins, pode não parecer o ponto de partida mais óbvio para um fenômeno da música pop brasileira. Mas foi ali que Ana e Vitória se conheceram ainda na adolescência, em meio a projetos escolares e pequenas apresentações.
O início foi simples, quase improvisado: gravações caseiras, vídeos divulgados na internet e a aposta em uma sonoridade que misturava folk, pop e elementos da música brasileira. A autenticidade chamou atenção do produtor Felipe Simas e do cantor Tiago Iorc, que não só acreditaram no talento das jovens, mas também ajudaram a estruturar seu primeiro projeto.
Em 2016, lançaram o primeiro álbum, autointitulado Anavitória, e viraram sensações. “Singular” e “Trevo (Tu)” se espalharam pelas rádios, playlists e, sobretudo, pelas redes sociais. Era o início de uma trajetória meteórica que, em menos de dois anos, renderia o primeiro Grammy Latino.
Uma estética própria
Desde o começo, Anavitória conquistou o público pela criação de uma estética musical única. O duo se apropriou da simplicidade para transformá-la em identidade: violões suaves, vozes em harmonia e letras carregadas de afetos cotidianos.
Mas reduzir o sucesso apenas à doçura seria superficial. Por trás das melodias leves, Ana Caetano despontou como uma das compositoras mais interessantes da nova geração, com uma escrita que une delicadeza e profundidade. Vitória Falcão, por sua vez, se consolidou como intérprete carismática, capaz de dar corpo e emoção às canções.
Essa dualidade entre força e fragilidade, entre o íntimo e o popular, ajudou a criar um estilo que se destaca em meio ao cenário musical brasileiro, que muitas vezes é marcado pela padronização dos hits de rádio.
Reconhecimentos e conquistas
O sucesso não demorou a se traduzir em números e prêmios. Em 2017, Anavitória conquistou o Grammy Latino de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. No mesmo ano, participaram da trilha sonora da novela Malhação: Viva a Diferença, ampliando ainda mais o alcance entre o público jovem.
Vieram também colaborações que marcaram época. “Trevo (Tu)”, com Tiago Iorc, tornou-se uma das músicas mais tocadas daquele período. A parceria com Nando Reis, em “N”, apresentou o duo a um público mais maduro, enquanto “Pupila”, com Vitor Kley, mostrou que poderiam dialogar com diferentes gerações sem perder identidade.
O impacto não ficou restrito ao Brasil. Turnês internacionais, com shows em países da Europa e da América Latina, ajudaram a projetar Anavitória como representantes de uma nova cena musical brasileira no exterior.
O amadurecimento em Esquinas
Lançado em 2021, o álbum Cor já havia sinalizado uma nova fase, mas foi com Esquinas, de 2024, que o amadurecimento artístico ficou evidente. O título remete aos encontros e desencontros da vida, às escolhas que se cruzam pelo caminho.
Musicalmente, o projeto apresenta arranjos mais densos, letras que exploram nuances emocionais e uma sonoridade que se distancia do “folk leve” do início para abraçar camadas de MPB e pop alternativo.
Nos palcos, a turnê Esquinas traduz esse conceito. O espetáculo aposta em uma atmosfera intimista, em luzes que acompanham a intensidade das canções e em arranjos repaginados que dão novo frescor a sucessos antigos. O público não encontra apenas a nostalgia dos primeiros álbuns, mas também a oportunidade de acompanhar a evolução de duas artistas que se recusam a ficar paradas no tempo.
Um respiro chamado claraboia
Lançado de surpresa em setembro de 2025, o álbum trouxe 20 faixas intimistas, gravadas em uma casa no interior paulista, e reforçou a busca da dupla por um som mais cru e sincero.
Pouco antes de consolidar a turnê Esquinas, Anavitória surpreendeu fãs com o lançamento de claraboia, um álbum de 20 faixas, entre músicas, interlúdios e experimentações que aprofunda ainda mais o lado introspectivo da dupla. Gravado entre fevereiro e abril de 2025 em uma casa alugada em Paranapanema–SP, o disco foi concebido como um “retiro criativo”, no qual Ana e Vitória viveram o processo de composição e gravação de forma quase artesanal.
Com arranjos minimalistas, voz e violão em evidência e letras que falam sobre afetos, memórias e a simplicidade do cotidiano, claraboia se distancia das fórmulas de rádio para oferecer uma experiência sensorial. Canções como “rua dos abacateiros” e “Olhar pra você” com Bruno Berle foram apontadas como destaques pela crítica, enquanto a parceria com Rubel em “isso é deus” reforça a faceta colaborativa do projeto.
A recepção foi calorosa: fãs elogiaram a autenticidade e a atmosfera intimista, ainda que algumas críticas tenham apontado a brevidade das faixas. Para Ana Caetano, contudo, trata-se do disco mais especial da carreira até agora: uma obra que simboliza pausa, recolhimento e luz.
O lançamento veio acompanhado do anúncio de uma turnê voz e violão para 2026, ainda mais intimista, mostrando que Anavitória segue em constante movimento, sempre alternando entre a experimentação e a delicadeza que as consagrou.
Uma história em movimento
Mais do que uma dupla de sucesso, Anavitória se tornou a trilha sonora de uma geração. Suas músicas falam sobre afetos, descobertas, despedidas e vulnerabilidades que ecoam no público jovem, mas que também dialogam com diferentes idades.
Ao mesmo tempo, a dupla se consolidou como símbolo de representatividade feminina no cenário musical. Em um mercado ainda marcado por assimetrias de gênero, Ana e Vitória abriram espaço para outras mulheres e mostraram que é possível alcançar visibilidade mantendo um projeto autoral, poético e distante das fórmulas fáceis de sucesso.
Quase dez anos após o lançamento do primeiro álbum, a trajetória da dupla já é parte importante da história recente da música brasileira. Com milhões de ouvintes mensais nas plataformas digitais, casas de show lotadas e prêmios acumulados, a dupla prova que autenticidade e consistência podem andar lado a lado.
Entre melodias suaves e letras que soam como confidências, Ana e Vitória seguem mostrando que a simplicidade pode, sim, ser revolucionária. E, ao que tudo indica, ainda há muitas esquinas — e muitas claraboias — a serem exploradas nessa história.
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O texto acima foi editado por Eduarda Lessa.
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