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Casper Libero | Style > Fashion

Quando a roupa vira discurso: a moda como estratégia política 

Mariane Ambrosio Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Uma necessidade primitiva, que acompanhou a evolução do homem e da sociedade, passando por diferentes momentos da história e ganhou diversos significados. As roupas inicialmente foram criadas por utilidade, considerando que, no Período Paleolítico, os homens dependiam essencialmente da caça e da pesca e precisavam de uma maneira de se proteger do frio, assim passaram a usar pele de animais cortadas e enroladas ao corpo, muitas vezes até costuradas com agulhas feitas de ossos. 

Com o passar dos anos, as peças adquiriram outros formatos e passaram a ser feitas de outros materiais, com isso, também, veio outra definição. Na Roma e no Egito Antigo, elas eram usadas como modo de afirmar uma posição e distinguir a hierarquia social, algumas vestimentas eram restritas à senadores e imperadores, considerando que o material usado era muito caro. Mais para frente, durante a Idade Média e o Renascentismo, seriam criadas as Leis Suntuárias, que controlavam o luxo e a extravagância, ditando quem poderia vesti-los. 

Em uma nova circunstância, as roupas deixariam de ser usadas apenas por necessidade ou por controle político, como estavam sendo usadas até agora na história. Claro, ainda fariam a vez de diferenciar a monarquia dos plebeus, mas ganharia um novo conceito. Isso aconteceu no século XVIII: enquanto a França passava por uma crise econômica, a rainha Maria Antonieta se vestia com trajes simples, apesar de serem feitos de algodão, que na época era um tecido luxuoso e importado, um escândalo na corte francesa. 

Em contraste com o restante da monarquia, seus trajes simples eram equiparados ao visual camponês, classe que mais estava sofrendo com a crise econômica da época. Se vestir assim era intencional, ela queria se afastar do rigor da corte, de seu papel como rainha e  mostrar seu desprezo pela realidade e, por consequência, se aproximar simbolicamente da população. A forma como as pessoas encaravam seus trajes deu um novo significado ao uso das roupas.

Moda é discurso?

Roupas são muito mais do que estilo e tendência, elas comunicam. Isso serve para algo simples, como vestir preto quando se está de luto, ou algo em maior escala, como historiadores que acreditam que para entender uma certa época é preciso conferir o que as pessoas vestiam. Os costumes, ideias, classe social, crença e valores podem ser transmitidas pelas roupas, e, assim como Maria Antonieta as usou de forma estratégica para se posicionar, é fácil perceber que essa prática se tornou comum. 

O famoso ditado “a beleza está nos olhos de quem vê”, usado para falar de estética, também pode se aplicar para a moda, porém de uma maneira um pouco diferente: a política da moda está nos olhos de quem vê. Isso significa que, apesar de muitos posicionamentos feitos através de vestimentas precisarem de certo nível de interpretação e referências, essa política está presente, seja reconhecida ou não. 

Servindo como uma ferramenta poderosa de comunicação, diferente dos que falam que é apenas futilidade, a moda não precisa de grandes gestos para mostrar uma opinião: desde a estilista Vivienne Westwood aparecer com uma camiseta escrita “climate revolution” ou “buy less” (em português “revolução climática” e “compre menos” respectivamente), comprar uma simples camiseta da Off White com os dizeres “Eu apoio jovens negócios comandados por empreendedores negros”, até comprar menos roupas, a fim de críticar o fast fashion e seus problemas. 

Uma das maiores referências dessa área na atualidade é o filme “O Diabo Veste Prada”, e, nele, uma das personagens principais, Miranda Priestly, diz que escolher não se importar com o que vai vestir já é uma escolha. E cada uma dessas escolhas é capaz de construir narrativas, reforçar mensagens, refletir contextos sociais e impulsionar mudanças culturais, o que torna a moda inerentemente política. 

Manifestações através do estilo

Tomando a forma de ferramenta de comunicação, as roupas viraram uma arma poderosa nas mãos da população nos anos 60 e 70, principalmente nos Estados Unidos, quando foram criados os movimentos Punk e Hippie que queriam lutar pacificamente contra o sistema e os valores institucionais da época. A estética Hippie surgiu em 1960, começou com um grupo de pessoas que se vestiam de forma despojada, com trajes coloridos e confortáveis para condizer com os seus protestos a favor da paz, igualdade de direitos e liberdade, e contra as armas e a Guerra do Vietnã

O outro grupo, que apareceu alguns anos depois, em 1970, se inspirou em elementos diferentes para protestar. Os Punks tinham um visual provocativo, usavam cores escuras e fortes, como vermelho e preto, muitas jaquetas de couro e tatuagens, assim foi a forma que encontraram de responder à crise econômica e criticar o sistema capitalista opressor, com uma ideologia anarquista eles buscavam a liberdade individual.

@jojoprofe

O punk e a sociedade inglesa dos anos 1970

♬ som original – Jonathan Portela

Enquanto os Estados Unidos passava por crises, sejam elas econômicas ou estilosas, no Brasil acontecia um golpe de estado, onde militares tiraram do poder o presidente eleito João Goulart, dando início a Ditadura Militar. Essa época ficou marcada como uma mancha na história do país, com repressão policial, controle do Estado sobre a sociedade, censura em diversas áreas, como em jornais e artes, e tortura aos opositores

Entre teorias e hipóteses, Stuart Angel Jones estaria do lado da oposição à ditadura, o que naquele período era motivo suficiente para virar alvo do governo. Aos 25 anos, Stuart se tornou um desaparecido político quando foi sequestrado por agentes da repressão. Revoltada e em busca de respostas, Zuzu Angel, mãe de Stuart e estilista, passou a lutar ativamente contra o regime militar, a melhor maneira que achou de protestar foi através de seu trabalho, em um desfile em 1971 no consulado brasileiro em Nova York.

Além do discurso, roupas também são ideologias 

Apesar de todas as mortes e desaparecimentos, entre tantos outros meios de tortura, que ocorreram durante a ditadura, esses quase 20 anos ainda dividem opiniões, devido ao fato de que esse período pode ser exemplo do uso de soft power. Isto é, quando o entretenimento é meio para distrair a população de crises políticas, e não tem nada que o brasileiro ame mais do que o clima de Copa do Mundo, evento usado como propaganda a favor do regime militar. 

O ex-presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores, em 2022, vestiram a camisa verde e amarela da seleção brasileira, não por ser ano de Copa do Mundo, mas para concretizar o discurso que Bolsonaro pregava e suas ideologias, a favor do conservadorismo e nacionalismo. A camiseta que remetia a felicidade e festa, por conta dos jogos, passou a ser vista como símbolo político, sendo odiada pelos opositores da direita. Mas Bolsonaro não foi o primeiro presidente a se apropriar dessa veste.

Em 1970, Emílio Médici usou a vitória do Brasil na Copa do Mundo a seu favor, a seleção que foi tricampeã, incluindo a vitória naquele ano, foi de bom proveito como propaganda positiva ao regime militar. A camisa foi popularizada através das transmissões mundiais dos jogos, com isso Médici passou a vesti-la com a intenção de exaltar o seu governo e divulgar suas ideologias, tais como de que o país estava indo para frente e era vitorioso tal qual a seleção, fazendo com que as pessoas esquecessem de que havia gente morrendo pela oposição a ditadura.

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O artigo acima foi editado por Rafaela Lima.

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Mariane Ambrosio

Casper Libero '28

A journalism student who wants to change the world with words