Her Campus Logo Her Campus Logo
Casper Libero | Culture

Como a realidade em El Salvador viola os direitos humanos?

Ana Rita Rodrigues Fernandes Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Por trás de destinos paradisíacos, paisagens montanhosas, praias belíssimas banhadas pelo Pacífico que atraem os olhares dos turistas e são conhecidas por serem excelentes para o surfe, a população de El Salvador vive em um regime cujo líder diz não se importar em ser chamado de ditador e responder a apelos populacionais históricos, pregando que age de um modo autoritário para que os locais “vivam em paz.”

Mas de onde surgiu tamanha violência em El Salvador?

A origem está nas maras, gangues locais que aterrorizavam a população. Elas eram compostas por imigrantes que viviam em Los Angeles, Estados Unidos, na década de 70 e vinte anos depois, em 1990, fruto das deportações do governo americano.

Organizados em grupos, eles se fincaram nesse pequeno país da América Central, criando raízes fortes, poderosas e com sistemas complexos de atuação em El Salvador. As mais famosas eram MS-13, que atuava na área urbana e rural, e Barrio 18, que detinha controle de parte da capital, São Salvador. 

No melhor momento pós consolidação, essas organizações somavam mais de 70 mil participantes e destilavam o ódio como base do terror sem limites, especialmente praticando extorsão de comerciantes, de modo a ficarem com mais de 10% do PIB nacional, separando famílias e executando pessoas. Conforme dados da ONG salvadorenha Socorro Jurídico Humanitário, 370 detentos morreram dentro das penitenciárias, vários com marcas de tortura.  

Durante muitas décadas, houve diversas negociações com os líderes das gangues, muitos que estavam presos, de modo que em troca de favores, a violência para com o povo seria minimizada. Até Nayib Bukele enquanto prefeito de San Salvador, de 2015 até 2019, e mesmo nos seus primeiros anos de mandato presidencial, chegou a agir dessa forma para com esses grupos. Acabar com a causa do horror nas ruas salvadorenhas era inadiável e, de fato, Bukele atingiu o objetivo, mas a forma como isso foi feito é essencial de ser discutida e contestada frente ao respeito dos direitos humanos universalmente.

@revista_veja

Nayib Bukele, presidente de El Salvador, passou a ser um político adulado pelo argentino Javier Milei e até por Donald Trump, que nele vê um aliado na “maior deportação em massa na história americana”. O país sob seu comando era um dos lugares mais violentos do mundo, mas virou modelo de segurança admirado pelos resultados e questionado por violações aos direitos humanos. Entenda como isso aconteceu na reportagem de VEJA. Link na bio.

♬ som original – VEJA – VEJA

Como é a atual realidade em El Salvador?

A realidade do país é consequência de uma política de linha dura implementada pelo presidente Nayib Bukele para combater a criminalidade. A antiga “capital global dos homicídios”, viu o dado que levava a esse apelido se tornar o menor da América Latina e ir de 36 mortes para 1,9 a cada 1000 habitantes.

As atitudes de Bukele só tornaram-se possíveis devido à declaração de um estado de exceção de 2022, quando a criminalidade atingiu um pico em El Salvador, que já foi renovado mais de 30 vezes. 

Nesse período e até a atualidade, as prisões em massa – por qualquer mínima e mesmo não confirmada suspeita de ligação com gangues – e o exército sendo duplicado de tamanho e se fazendo presente nas ruas – com destaque ainda maior para a construção da CECOT (O Centro de Confinamento do Terrorismo), o maior presídio da América Latina e de segurança máxima – são fatores que sustentam a existência de dados numéricos tão impressionantes sobre a diminuição da violência.

O país vive a maior taxa de encarceramento do planeta, com 10% da população masculina atrás das grades e 85 mil pessoas presas sem mandado judicial, de modo que direitos básicos são violados. Não houve ainda qualquer julgamento dos indivíduos que vivem em cárcere, se vierem a existir serão coletivos e o fato mais alarmante: calcula-se que um número próximo da metade de presos sejam inocentes.

A partir do aparelhamento da máquina pública com o estado, Bukele chegou em um nível máximo de dominação governamental, no qual não há controle sobre seu poder. Outro fator importante foi seu partido conquistar maioria na Assembleia e, como consequência, teve-se a demissão do procurador geral, o qual investigava desvios de verba, aposentava juízes e os substituia por aliados políticos. 

Assim, realizou mudanças nas regras eleitorais para acabar com o partido da oposição, iniciou um processo de censura – quando determinou a prisão de diversos jornalistas e ativistas – e até promoveu uma reinterpretação da constituição, a qual proibia a reeleição, mas Bukele concorreu novamente e foi eleito. Vale ressaltar que essa queda na prática do terrorismo só foi possível devido ao país ser pequeno, contando com 6,3 milhões de habitantes.

Ascensão de mais um líder de direita

O presidente eleito segue pelo mesmo caminho de Javier Milei e Donald Trump. O último, inclusive, vê nele possibilidade de parceria para realizar a  “maior deportação em massa da história americana”, ao abrir um presídio enorme para receber os deportados dos Estados Unidos, especialmente venezuelanos que supostamente fazem parte de uma facção criminosa tradicional do país, além de outros criminosos estadunidenses. 

Houve também um apoio financeiro americano de 6 milhões de dólares, além de mais 1,4 bilhões de dólares como empréstimo do FMI. A China é outro país que investiu em El Salvador na realização de obras internas, como uma enorme biblioteca na capital e outros locais estratégicos, com o objetivo de conquistar cada vez mais apoio popular. 

Esse também atraiu olhares da direita moderada, composta por muitos representantes brasileiros como Pablo Marçal, Eduardo Bolsonaro e Zema. Outros países latino-americanos se mostraram favoráveis e buscaram inspiração na ideia de Bukele. Exemplo disso é o Equador, que está tomado por facções criminosas responsáveis por tráfico de drogas, no qual foi declarado estado de exceção, mandou construir duas mega prisões e foi reeleito, após tais atos. Esse é apenas mais um sinal do movimento crescente da extrema direita chegando ao poder pelo mundo afora. 

A imagem de Bukele frente a população de El Salvador 

Originário da Palestina e formado em publicidade, Bukele, eleito em 2019, se autodeclara “o ditador mais legal do mundo” e como o “maior carcereiro do planeta”. Com características semelhantes a ascensão dos movimentos de direita no momento presente, ele surgiu como o jovem, ativo nas mídias sociais, onde se apresenta com pegada informal e nacionalista, moderno, transformador, diferente, revolucionário e como a terceira via, com o partido Novas Ideias, em meio ao partido de esquerda (FMLN) e ao de direita (Arena). 

A preservação e manipulação de sua imagem visa atingir um público e um objetivo específico: o povo carente de um líder que trouxesse a sensação de segurança e concorda que a única forma de ter paz em El Salvador novamente é por meio de todo esse processo repressivo, que mais visa perseguir opositores do que qualquer outra coisa, com políticas de terror e controle do estado sobre a população.

@tvcultura

No #JornalDaCultura dessa segunda-feira (05), o economista Ricardo Sennes comentou sobre a eleição presidencial em El Salvador e os integrantes do Congresso Nacional. Assista ao trecho! #TVCultura #Política #El Salvador #Bukele #Sociedade

♬ som original – TV Cultura Oficial

Esse problemático modelo ditatorial e tirânico encontra apoio massivo da população local, com a aprovação de Bukele estando 91%. Isso se deve ao fato de que as pessoas, por estarem cansadas de uma realidade repleta de violência e impunidade, no qual o governo se faz ineficiente, achem medidas radicais a única forma de resolver a questão, acreditando em discursos e ações como as de Bukele que levam a uma aparente pacificidade nas ruas de El Salvador. 

Por outro lado, famílias formaram o Movimento Vítimas do Regime. Essas se auxiliam, realizam protestos, põe sua liberdade em risco a troco de defender que seus parentes foram vítimas de censura, repressão, perseguição política e estão buscando tirar inocentes, vítimas de Bukele, da prisão – sem contar os casos de desaparecimento.

—————————————————————–

O artigo acima foi editado por Camila Iannicelli

Gostou desse tipo de conteúdo? Confira Her Campus Cásper Líbero para mais!

My name is Ana Rita Rodrigues Fernandes. I am a seventeen-year-old Brazilian journalism student at Faculdade Cásper Líbero. My interests include culture, politics, cinema, literature, music, and sports, especially soccer.