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Casper Libero | Culture

“Homem com H” é o filme que Ney Matogrosso merecia?

Camilly Vieira Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A cinebiografia Homem com H chegou aos cinemas em 1º de maio, revelando a trajetória de Ney Matogrosso — um dos maiores artistas do Brasil e símbolo radical de liberdade, arte política e quebra de padrões. É uma carta aberta a quem, desde sempre, ousa ser livre.

Homem com H

Dirigido, roteirizado e produzido por Esmir Filho, o filme narra o caminho trilhado por Ney Matogrosso, desde sua infância e relacionamentos familiares conturbados até sua ascensão como um dos maiores artistas brasileiros. Na produção, Jesuíta Barbosa, conhecido majoritariamente por seu trabalho em Tatuagem (2013) e pelo remake de Pantanal (2022) na TV Globo, o interpreta desde sua adolescência, seguindo por toda sua fase adulta. 

A performance de Jesuíta é magistral. A interpretação vocal e corporal são resultantes de seu talento, tornando-se irreconhecível à vista de todos os seus papéis anteriores. Seu olhar é firme e marcante, de maneira que é imensamente intratável imaginar atores com tamanha semelhança e dissipação para o papel. Barbosa e seu olhar petrificador tornam-se um amuleto hipnotizante ao público. 

Claramente, sua performance é fruto de um trabalho psíquico, físico e intelectual intenso.  “No geral ele acerta olhar, gesto, olhar arregalado de bicho cantando, ele presta atenção em mim, eu vejo, ele fica me olhando. Uma vez em Fortaleza ela ficava prestando atenção em como eu era pra ele fazer”, disse Ney durante sua participação no Conversa com Bial. O que não nos sobra são dúvidas de tamanhos esforços dedicados a homenagear e incorporar um nome como Ney Matogrosso. Jesuíta e seu trabalho são dignos de todos os aplausos que podem ser extraídos por um público, que por si só, é devorado por tal semelhança e brilhantismo. 

O filme também caminha sob a fotografia de Azul Serra e a direção de arte de Thales Junqueira, que juntos criam uma linguagem cinematográfica capaz de nos transportar por meio de suas colorações e planos de “zoom in” e “zoom out” — que nos aproxima e nos afasta dos pertencentes daquela cena alternando, assim, nossas perspectivas. Há também os planos fechados, responsáveis por causar íntimas sensações com o público,  fatores que se alinham à personalidade de Ney e de sua postura irreverente conquistada. 

Estilo Nômade

Sua infância foi regada pelo crescente militarismo brasileiro e pela moral dos bons costumes da época. O fator determinante em sua criação e história como um todo, é a relação de Ney com o pai, Antônio. Interpretado por Rômulo Braga, a figura de seu pai é autoritária, potente e intimidadora a todo momento. Há uma atmosfera fria que ronda sua casa, sua família e suas posteriores escolhas.

Conforme o tempo passa, são perceptíveis as semelhanças que tanto afastaram Antônio de seu filho. Apesar de suas diferenças morais, ambos possuíam os mesmos mecanismos de defesa, resultando em desavenças brilhantemente abordadas em cena. A partir de uma discussão instaurada sobre o consumo de água em casa — a mesma caixa de água que Ney era obrigado a encher desde criança — o artista é expulso de casa. 

Ney entra para o serviço da Aeronáutica, no qual o próprio pai trabalhava. Neste período, já podemos notar firmemente seus desejos amorosos e angústias pessoais enquanto jovem. Muda-se para Brasília e inicia os trabalhos em um coral local, onde se destaca por sua voz única. Vai  para São Paulo e logo depois para o Rio de Janeiro, transformando o estilo nômade de viver a vida em combustível para se tornar aquele que sempre foi destinado a ser. 

“Não me visto de mulher. Me visto de Ney Matogrosso.”

Ney Matogrosso

O mesmo cenário de terra, planta, ar e água é exibido ao final da trama. Ney é bicho. Até porque, o que mais poderia ser? Seu estilo andrógeno é verbalizado em suas roupas, cabelo, opiniões políticas, relacionamentos e também em sua estreia como vocalista da banda Secos e Molhados. A banda era composta por músicos amadores, enfrentando suas ideias que consistiam em musicalizar poesias pré-existentes. Ao ser apresentado a “Rosa de Hiroshima”, poema escrito pelo cantor e compositor Vinicius de Moraes, entretanto, em formato de canção, Matogrosso assimila o que poderia ser feito a partir disso.

“Ninguém nunca tinha cantado e se vestido do jeito que eu me vestia. Ninguém tinha cantando com o rosto escondido como eu. Acho que muita coisa foi atiçando o povo”, analisou o artista. As maquiagens eram primordialmente uma forma de se “poupar do desprazer de não andar na rua, porque diziam que artista não andava na rua. Como é que eu ia perder o direito de andar na rua com 31 anos de idade?”, questionou Ney em conversa com Pedro Bial.
Sua estreia nos palcos chamou a atenção do público e principalmente da mídia, para o bem e para o mal. Suas roupas (ou a falta delas), sua maquiagem (inspirado por imagens do teatro kabuki que via ao caminhar pelo bairro da Liberdade, em São Paulo) e a maneira de se portar e se expressar no palco foram alvo de inúmeras críticas de jornalistas e de conservadores da época.

“Me aponta uma mulher na rua com a maquiagem igual à minha.”

Ney Matogrosso

O que tantos contestavam, o imortalizou. Ney se deu conta de que, como qualquer outro bicho, havia se tornado um produto nas mãos daqueles que detinham o poder. Diante disso, passou a se dedicar exclusivamente a sua carreira, jamais deixando para trás a sua essência e o que lhe faria feliz. Em todos os momentos, dedicou e debruçou todas as suas realizações, aspirações e angústias a sua mãe, Beíta, interpretada por Hermila Guedes.

Ney contra a censura 

Sua carreira emerge durante a ditadura militar, o que não poderia ser mais distópico, tendo em vista seu posicionamento como artista. Durante mais de duas décadas, suas maquiagens, roupas, performances, músicas e até mesmo sua própria retórica e escolhas sexuais, foram extremamente necessárias para a luta contra a opressão sofrida por todas as comunidades que não se alinhavam aos ideais governamentais e morais daquele regime. 

Sua imagem e feitos continuam sendo poderosos. E assim como em sua infância não chorava ou evitava, sua carreira artística foi, e continua sendo destinada, à recusa de se derramar lágrimas. Não enquanto houver música, amor e tanta vida para viver. 

“Meu corpo é político. Quando subo no palco, estou me posicionando.”

Ney Matogrosso

“Tem algo de muito genuíno na corporeidade desse homem, desde sempre, isso aparece no trabalho dele de uma forma clara e muito bonita de ver. Sempre tive vontade de ser quem eu era, não colocar nenhuma amarra “, ressaltou Jesuíta Barbosa, também em entrevista no programa Conversa com Bial, expondo a sua admiração longilínea pelo artista que teve o prazer de interpretar. 

A Epidemia 

Outro ponto essencial para a trama é o período obscuro da epidemia de AIDS resultante do vírus HIV e experienciado pelos brasileiros em meados dos anos 80. O vírus em questão atingiu sobretudo pessoas da comunidade LGBTQIA+, tendo como primeira vítima pública o estilista Markito, um dos  mais renomados modistas do cenário brasileiro. A doença trouxe consigo a fatalidade, o preconceito e a desinformação abundante — sendo referida como “câncer gay” por grande parte dos jornais da época.

Em 1990, aos 32 anos de idade, Cazuza, representado por Jullio Reis, morre. É a partir da relação conturbada e história potente de amor entre ambos que é narrado o momento  cruel em que todos estavam expostos naquele período. Não havia enfoque em tratamentos ou soluções, mas os holofotes estavam completamente concentrados na comunidade LGTBQIA+, como se o problema fosse intrinsecamente deles. Esse fator abriu portas para maiores índices de abominação e ignorância por grande parte da população. “Eles querem colocar a culpa em nós, mas a culpa não é nossa”, Ney exclama na obra.

Sim, leitores. O filme é merecidamente um presente à potência que é este artista, em todas as suas esferas, artifícios e causalidades. Além de suas atuações primorosas, a obra conta a história de Ney com sensibilidade, poesia e autenticidade, por parte de todos os responsáveis que deram vida ao projeto. Mesmo que você não seja um ouvinte ou fã fiel, é imprescindível que ao menos seus olhos fiquem marejados ao ouvir a voz única do homenageado e ao perceber que ele, aos 83 anos de idade, permanece reluzente, vibrante, político e original como sempre ousou ser. É, sem sombra de dúvidas, uma das melhores produções do circuito nacional – e que não foi feito para agradar, mas para provocar, como diria Ney Matogrosso. 

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O artigo acima foi editado por Fernanda Alves.

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Camilly Vieira

Casper Libero '27

Casper libero 2027’ Journalism Student in São Paulo, Brazil