Nos últimos anos, o rap brasileiro viveu uma explosão de eventos que consolidaram o gênero como um dos principais fenômenos culturais do país. Porém, em 2025, esse cenário começa a mostrar sinais claros de desgaste. Grandes eventos enfrentam dificuldades para se manter, com cancelamentos, adiamentos e uma queda significativa na venda de ingressos. Por trás desse quadro, há uma série de fatores complexos – que vão desde a logística e os altos custos de produção, até o poder aquisitivo do público e a saturação dos line-ups – que tem colocado em xeque a sustentabilidade dos festivais de rap.
Mas nem tudo está perdido. Enquanto alguns eventos tradicionais lutam para sobreviver, novos modelos começam a emergir, impulsionados por artistas que assumem o protagonismo na criação de suas próprias festas, e por produtores que buscam uma reinvenção do formato.
A CRISE ESTRUTURAL DOS FESTIVAIS
A crise dos festivais de rap não é apenas uma questão de falta de público ou de interesse, mas sim um reflexo de problemas estruturais que afetam toda a cadeia produtiva dos eventos. Os custos de produção dispararam, incluindo a montagem de estruturas complexas, a contratação de equipes especializadas e a garantia de segurança para grandes públicos.
Além disso, a logística tornou-se um gargalo ainda maior, o transporte de equipamentos, artistas e equipes, a obtenção de licenças e alvarás, e a coordenação de toda a operação exigem um investimento massivo e uma gestão eficiente. A falta de patrocínio também é um fator determinante. Muitos festivais dependem de grandes marcas para viabilizar suas edições, e a ausência desses investimentos podem acabar inviabilizando o evento.
“Um patrocínio muito importante para a realização do festival não se concretizou a tempo, causando atrasos em nossa agenda e inviabilizando a montagem do nosso festival”, disse a organização do REP Festival ao anunciar o adiamento de sua edição de 2024.
PODER AQUISITIVO DO PÚBLICO E SATURAÇÃO DOS LINE-UPS
Após um período de euforia pós-pandemia, o consumidor se tornou mais seletivo e criterioso na hora de gastar seu dinheiro. Com a alta dos preços dos ingressos, muitos fãs de rap precisam escolher quais eventos priorizar, e a repetição de artistas nos line-ups pode desmotivar a compra.
A falta de renovação nos elencos e a priorização de artistas no mainstream podem afastar o público que busca novidades e experiências diferentes. Além disso, a crise econômica e o aumento do custo de vida impactam diretamente a capacidade do público de investir em eventos culturais. Em um cenário de incertezas, muitos consumidores preferem economizar e reduzir seus gastos com lazer e entretenimento.
As questões financeiras e a concentração da falta de renovação nos elencos, soma-se uma questão ainda mais urgente: o apagamento das mulheres na cena dos festivais. A falta de representatividade feminina nos line-ups, além de reforçar desigualdades de gênero, afasta o público que consome que busca diversidades e representatividade nos palcos.
“O que falta agora não é nem a representatividade das mulheres no rap, mas sim a oportunidade para que elas ocupem os palcos”, comenta Karol Conká à Billboard Brasil.
FESTIVAL CENA E NICOLE BALESTRO: O FUTURO DOS EVENTOS EM REINVENÇÃO
À frente do Festival Cena, a diretora artística, Nicole Balestro, tem se dedicado a encontrar soluções para os desafios do mercado de festivais, buscando oferecer uma alternativa aos grandes eventos, com foco na qualidade da experiência e na valorização da cultura hip-hop.
Ela ressalta a importância de criar eventos que vão além do entretenimento, que promovam a inclusão, a diversidade e a conexão entre artistas e público. Em entrevista ao podcast da RapTV, Nicole afirmou que a chave para superar a crise é a profissionalização e a busca por modelos de negócios mais sustentáveis. “Não é uma crise do rap, mas dos modelos de festivais que precisam se reinventar. O público quer qualidade, segurança e propósito, e os eventos que conseguirem oferecer isso vão dominar”, afirma.
GIGANTES FESTIVAL: ARTISTAS NA PRODUÇÃO E A RETOMADA DA CENA
Em meio à essa crise, uma tendência que ganha força é a dos próprios artistas assumirem o protagonismo na criação e produção de seus eventos. O rapper BK’, é um exemplo emblemático desse movimento.
No último fim de semana de abril, ele realizou a primeira edição do GIGANTES Festival no Rio de Janeiro, que foi um sucesso de público e crítica. BK’ explicou à Billboard Brasil que a ideia do festival nasceu do desejo de “jogar algo de volta para a cultura, criar um evento com identidade, alma e propósito”. Para ele, o rap precisa de espaços autênticos, onde a cena possa se expressar livremente e com respeito às suas raízes.
Paralelamente, o Festival Cena, um dos principais palcos do trap e do rap nacional, também se destaca como exemplo de inovação na cena. As edições de 2019, 2022 e 2023 foram marcantes, reunindo grandes nomes e revelando novos talentos, consolidando o festival como uma vitrine essencial para a cena paulista e nacional.
Após uma pausa em 2024, o Cena retorna em novembro de 2025, com a promessa de manter a qualidade, segurança e diversidade que o tornaram referência.
Essa combinação de festivais autorais, como o do BK’, e eventos estruturados como o Cena, aponta para uma tendência de fortalecimento da cena por meio da profissionalização, do propósito cultural e da conexão direta com o público, mesmo em um contexto econômico e logístico desafiador.
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O artigo acima foi editado por Clara Rocha.
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