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Plágio Internacional: Uma Trama Brasileira No Oscar De Alfred Hitchcock

Carolina Nabuco nasceu em 1890 no Rio de Janeiro, filha de Joaquim Nabuco, um importante diplomata do Império do Brasil e cofundador da Academia Brasileira de Letras. Daphne du Marrier também nasceu em uma capital, a do Reino Unido no ano de 1907, e igualmente possuía um pai famoso, o ator inglês Gerald du Marrier. As duas também dividiam a paixão pela escrita, bem como dois livros com a mesma sinopse, onde o enredo psicológico centra-se em uma mulher que casa-se com um rico viúvo, mas sente se perseguida pela memória da falecida primeira esposa.

Até 1938, as duas escritoras não possuíam nenhuma conexão, e a descrição acima pertence tanto ao livro “A Sucessora”, de Nabuco, quanto de “Rebecca”, de du Marrier. Uma outra grande “coincidência” é a de que os manuscritos das duas teriam passados pelas mãos de uma mesma agência literária, o da brasileira ainda em 1934, mesmo ano em que lançou a obra no Brasil. E du Marrier, apenas 4 anos mais tarde.

Apesar das duas terem outras obras igualmente bem-sucedidas, para ambas estas foram as mais consagradas, e portanto a polêmica do suposto plágio é fervorosamente defendida por seus fãs e cidadãos de seus respectivos países, já as duas estatuetas do Oscar só serviram para acirrar a disputa.

A própria Carolina Nabuco escreveu em “Oito Décadas” que traduziu “A Sucessora” para o inglês almejando publicá-lo no exterior e ter o mesmo sucesso que alcançou no Brasil. Ainda em 1934, enviou os manuscritos para uma agência literária, em Nova York, acrescentando um pedido de que fizessem contato com alguns agentes no Reino Unido. 

Em 1938, após tomar conhecimento de “Rebecca” escreveu para a empresa americana questionando sobre seus rascunhos e perguntando pelos agentes britânicos. A resposta recebida foi de que a agência nunca havia conversado com nenhum agente literário inglês a respeito de “A Sucessora”.

No Brasil, a função de um “agente literário” ainda é desconhecida até para a maioria dos aspirantes a escritores. Enquanto que por aqui os manuscritos são enviados diretamente para as editoras, tanto nos EUA quanto no Reino Unido o costume consiste nas obras serem intermediadas por um profissional, que irá selecionar os melhores textos e tentar convencer algum editor a publicá-los.  Nos últimos anos, esse profissional acabou ganhando um pouco de espaço no mercado literário nacional, principalmente entre as editoras que não aceitam mais receberem originais.

A professora de inglês emérita da Universidade da Pensilvânia, Nina Auerbach, alegou em seu livro, “Daphne du Maurier, Haunted Heiress” (du Maurier , a herdeira assombrada) que a escritora teve acesso aos manuscritos em inglês enviados à Inglaterra e os usou como base para Rebecca.  A britânica e seu editor negaram as acusações de plágio, afirmando que o enredo é muito comum, sendo facilmente encontrado em outras obras, como por exemplo, em “Jane Eyre” de Charlotte Brontë.

A história de um suposto plágio internacional envolvendo um escritor nacional de sucesso fez correr tinta nos jornais e revistas brasileiras, porém passou quase despercebida no exterior, onde “Rebecca” fez um estrondoso sucesso e chamou a atenção do cineasta britânico , Alfred Hitchcock, que viu no enredo de du Marrier uma excelente trama para seu primeiro filme americano.

O longa-metragem “Rebecca, Uma Mulher Inesquecível” estreou em março de 1940 em Miami, contando com as atuações de Joan Fontaine e Laurence Olivier. Sucesso comercial e de crítica, foi logo indicado para onze estatuetas do Oscar, tendo ganhado a de Melhor filme e de Melhor Fotografia. Consequentemente, a súbita popularidade da produção cinematográfica ressuscitou as acusações de plágio, desta vez também na imprensa internacional.

Em 16 de novembro de 1941, uma matéria intitulada “An Extraordinary Parallel Between Miss du Maurier's "Rebecca" and a Brazilian Novel; Literary Coincidence”, do New York Times feita pelo jornalista Frances R. Grant, também apontou as semelhanças entre os livros, levando o debate do suposto plágio para o território americano.

Rebecca uma mulher inesquecível” desembarcou no Brasil no mesmo ano e muito bem acompanhado de representantes da United Artists, dispostos a fecharem um acordo com Nabuco. O documento trazido por estes explicitava que a brasileira admitia que as semelhanças entre as obras não passavam de pura “coincidência”, e como retorno, uma compensação financeira, de acordo com o que foi recusado pela própria.

Carolina Nabuco nunca cogitou a hipótese de abrir um processo contra du Maurier ou seus editores ingleses pois, de acordo com a mesma, seria um esforço em vão. Em 1978, a Rede Globo transformou o enredo de “A Sucessora” em uma novela de mesmo nome. Porém, grande parte do público que já não se lembrava de uma obra publicada quase trinta anos antes, acreditou que a trama das 18h havia saído do filme de Hitchcock. Nabuco faleceu dois anos mais tarde aos 91 anos, e pouco tempo depois a britânica seguiria o mesmo caminho.

Outras acusações de plágio em “Rebecca”

Em 15 de setembro de 1941, a Sra. Edwina L. MacDonald, uma norte-americana, abriu um processo contra du Marrier, a editora nos EUA e os responsáveis pela versão cinematográfica, sob a acusação de que a britânica havia roubado parte do enredo de um de seus livros, pouco conhecido: “Blind Windows”. A acusação apontou 46 pontos semelhantes entre as obras e o processo foi iniciado com uma audiência sumária, porém apenas cinco anos mais tarde, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1948, a queixa acabou por ser indeferida. MacDonald faleceu alguns meses depois e tanto seu caso jurídico, bem como seus trabalhos literários caíram em esquecimento.

Um segundo caso de plágio internacional envolvendo um livro brasileiro

“A Sucessora” não é o único caso de um livro brasileiro que teria sido supostamente plagiado por um estrangeiro. O Livro “A Vida de Pi “ do escritor canadense Yann Martel, publicado em 2001, possui muitos pontos em comuns com a obra “Max e os felinos” lançada em 1981 pelo gaúcho Scliar. Em 2012, com a estreia da versão cinematográfica de “As Aventuras de Pi”, boatos que Scliar processaria o canadense estouraram na mídia, o que levou Martel a vir a público e confessar que havia baseado sua obra em “Max e os felinos”, colocando assim um ponto final na história.

Republicação e remake

Foi anunciado um remake de “Rebecca, a mulher inesquecível” para 21 de outubro de 2020. Rebecca (2020), como está sendo anunciado, conta com as interpretações de Lily James e Armie Hammer e direção de Ben Wheatley. Não há previsão para data de lançamento do longa no Brasil. Em 2018, a editora Instante decidiu republicar uma nova versão de "A Sucessora", dessa vez acrescentando, no prefácio do livro, a odisseia desse clássico que marcou diversas gerações de leitores, sejam eles brasileiros ou estrangeiros. Amantes de literatura antiga ou curiosos sobre a polêmica.

Representatividade feminina na literatura

Em meio a um panteão de escritores brasileiros homens, são poucas as vozes femininas que se destacaram na literatura. Carolina Nabuco é uma delas, bem como Clarice Lispector, Lygia Fagundes e outras menos conhecidas. A literatura brasileira é conhecida por ser um domínio masculino composto por histórias e pontos de vistas dos quais a grande maioria feminina não concorda. A exemplo, pode-se citar os estupros romantizado na famosa obra de Jorge Amado, Capitães da Areia. A valorização da voz feminina na literatura, numa época em que seus escassos direitos civis não poderiam lhe proporcionar isso, é uma saída para as futuras gerações de estudantes entenderem pontos de vistas muitas vezes ignorados pela grande maioria dos escritores e da sociedade brasileira.

The article above was edited by Safira L.M.

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Lídia Esteves

Casper Libero '20

Lídia é estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Amante do mundo do cinematográfico, criou em 2018 o LyTimes, um blog exclusivo para á cobertura de seriados.
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