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Jocelyn Hsu / Spoon
Entertainment

Análise De Paralelos Entre A Série Harry Potter E Questões Político-Sociais

A saga britânica Harry Potter reúne milhares de fãs ao redor do mundo. A história do menino que sobreviveu é capaz de encantar desde as crianças até os adultos, uma vez que a trama, além de abordar temas como a valorização da amizade, traz assuntos mais densos que se tornam cada vez mais presentes ao longo da narrativa. Apesar dessa transformação ao longo dos livros e filmes ser muito clara, reflexões mais aprofundadas podem passar despercebidas.

A série contempla diversas questões político-sociais em suas entrelinhas, confira algumas delas a seguir.

As crueldades cometidas contra os elfos domésticos

No mundo bruxo, os elfos possuem apenas um propósito de vida: servir fielmente a seus mestres. Essas pequenas criaturas são submetidas a condições desprezíveis, sendo escravizadas, objetificadas e torturadas tanto física quanto psicologicamente. Entretanto, essa escravização está tão naturalizada na sociedade bruxa que ninguém contesta as injustiças praticadas contra os elfos domésticos, muito menos eles mesmos, que por mais que reconheçam que são tratados com inferioridade, sentem prazer absoluto e honra em praticar seus serviços para a família a qual pertencem. Quando desobedecem a seus donos, por exemplo, não apenas sofrem maus tratos por eles, mas também se automutilam, por se sentirem envergonhados.

Os Elfos só podem deixar a serventia se receberem de seus senhores uma peça de roupa. A grande maioria deles assimila liberdade como algo ruim, como a elfa Winky, que após sua família a libertar por ser acusada de algo que não cometeu, sente tanta falta em servir que enlouquece e passa a ser alcoólatra. Em contrapartida, Dobby, o elfo mais querido pelos fãs, usufruiu ao máximo de sua liberdade e descobriu enfim a felicidade, entretanto, ele foi apenas uma exceção. Infelizmente a aceitação está tão estabelecida, que a maioria dos elfos ao serem libertados reagem como Winky.

No livro “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, Hermione Granger, cansada de ouvir que os elfos nasceram para a servidão, funda uma organização ativista chamada F.A.L.E (Fundo de apoio à libertação dos elfos domésticos) que tem como objetivo reivindicar direitos e dar a eles a liberdade que merecem,  porém, como todos estão cegos em relação a isso, apesar de ser uma ação nobre  e com boas intenções, ela falha.

O preconceito sofrido por bruxos que nasceram trouxas

O termo Nascido trouxa é usado para se referir aos bruxos que nasceram em uma família de pais trouxas (não bruxos). Portanto, pelo fato de não terem nenhuma referência do que é ser bruxo, eles só descobrem quem realmente são a partir do momento em que são convidados para frequentar a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. 

Não é nada fácil ser um nascido trouxa na sociedade bruxa já que, por muitos, eles são considerados inferiores e não merecedores de possuir magia, sendo assim, constantes alvos de preconceito. Muitos dos Puro Sangue (bruxos de famílias inteiramente mágicas), por exemplo, usam o termo “sangue-ruim” de maneira pejorativa para denominar os nascidos trouxas. 

Hermione Granger é um exemplo de vítima de bullying por ser nascida trouxa. Durante a saga, Draco Malfoy a xinga de sangue-ruim várias vezes como forma de afirmar seu sentimento de superioridade, que segundo a própria Mione em “Harry Potter e a Câmara Secreta” esse não é um termo que se use durante uma conversa civilizada. Entretanto, apesar de toda a discriminação que sofre, Hermione sempre prova tanto por meio de seu intelecto, quanto através de suas habilidades no uso da magia, que o sangue não a define e não a faz ser menos bruxa que os outros, levando em conta que isso é apenas uma diferença socialmente construída.

A mídia tendenciosa controlada pelo Ministério da Magia

Na saga Harry Potter, o jornal “O Profeta Diário” é o principal meio de comunicação para se informar sobre as notícias do mundo mágico, ele é entregue diariamente para os bruxos da Grã Bretanha por meio de corujas. Pelo fato de ser controlado pelo governo, ou seja, pelo Ministério da Magia, seu conteúdo é escrito de forma estratégica, tendenciosa e sensacionalista, a fim de manipular as mentes e opiniões da sociedade. Muitos bruxos alienados interpretam o que é noticiado no Profeta como verdade absoluta, sem que possa haver contestações. 

É possível notar claramente essa manipulação em “Harry Potter e a Ordem da Fênix” quando Cornélio Fudge, Ministro da Magia decide fazer campanhas com o objetivo de difamar Dumbledore e Harry como loucos, mentirosos e sedentos por atenção depois de alegarem que o Lorde das Trevas havia retornado, censurando assim, a verdade. Se, desde o início, o jornal tivesse sido imparcial, muitas mortes seriam evitadas no futuro. 

Até mesmo alguns amigos de Harry duvidavam de que ele estava falando a verdade sobre a volta de Lorde Voldemort. A única estudante de Hogwarts que sempre acreditou nas palavras dele foi Luna Lovegood, que por muitos era vista como uma menina lunática. O pai de Luna é Xenofílio Lovegood, editor da revista “O Pasquim”, que tem como um dos principais objetivos oferecer informações sem qualquer influência governamental, entretanto, por ser constituída muitas vezes de teorias da conspiração e algumas curiosidades bizarras, é vista pelo público como um canal de notícias falsas e absurdas. Assim como sua filha, Xenofílio nunca duvidou do que Harry dizia e noticiava esse seu ponto de vista em sua revista, na tentativa de alertar a população. O editor, ao contrário do Profeta, não busca lucrar mas sim informar e entreter seus leitores. 

O surgimento da Armada de Dumbledore

Durante o quinto ano de Harry em Hogwarts, o Ministério está controlando várias esferas sociais, inclusive a educacional. Com isso, por ordem de Cornélio Fudge, sua subsecretária, Dolores Umbridge, é contratada como nova professora de Defesa Contra as Artes das Trevas e Dumbledore é afastado do cargo de diretor da escola por ser considerado uma ameaça ao governo e uma má influência para os alunos. 

Com Dumbledore afastado, Umbridge é nomeada “Alta Inquisidora”, e passa a ter mais poder sobre Hogwarts. Apesar de sua voz calma, infantil e suas fofas roupas cor-de-rosa, ela abusa de sua influência para impor centenas de leis autoritárias e praticar violência física e psicológica contra alunos e, até mesmo, professores. Além disso, apesar da disciplina que ela leciona ser inteiramente baseada na prática de feitiços defensivos, ela se recusa a ensiná-los, pois eles podem servir como ferramenta caso os alunos decidam se rebelar contra o sistema.

Em meio a esse caos, surge a Armada de Dumbledore, uma organização estudantil liderada por Harry Potter que tem como objetivo ensinar as práticas de Defesa Contra as Artes das Trevas a fim de preparar os alunos para se defenderem de contra ataques de Dementadores, Comensais da Morte, Você-Sabe-Quem ou em qualquer situação de perigo que devam se proteger e lutar. O nome foi criado por Gina Weasley, que segundo ela o maior medo do Ministério é uma força armada de Dumbledore.

Harry, que tinha mais experiência visto que até então já havia enfrentado o Lorde das Trevas algumas vezes, ensinou a seus colegas tudo que sabia, como, por exemplo, o feitiço de magia avançada anti-dementador, conhecido como “Feitiço do Patrono”. A AD, portanto, não é apenas um movimento estudantil, mas também um símbolo de resistência.

Podemos perceber que a história proposta por J.K Rowling não é tão superficial como se imagina, visto que temas como a escravidão, o preconceito contra as minorias, a manipulação midiática e os governos autoritários encontrados na trama foram inspiradas nas injustiças do mundo real.

Você já tinha parado para pensar em algumas dessas questões?

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O artigo acima foi editado por Vivian Cerri.

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Marcela Cerri

Casper Libero '24

Estudante de Relações Públicas
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