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Felicity Warner / HCM
Entertainment

Inclusão No Oscar? 4 Momentos Que A Premiação Não Foi Inclusiva

A premiação do Oscar é uma das noites mais esperadas do ano, seja por aqueles que estão curiosos para saber quais filmes serão premiados, por outros que desejam ver seus artistas favoritos receberem o prêmio e, especialmente, pelos amantes de uma das mais importantes cerimônias de cinema. É nítido o impacto e a repercussão da premiação para o mundo. Porém, durante os seus 92 anos de existência, mesmo a Academia reconhecendo a influência e posição que a cerimônia possui, a desigualdade e falta de representação ainda existem. 

A inclusão é imprescindível, pois é uma ferramenta valiosa para representar e prestigiar diferentes culturas, através da sétima arte. Quando a premiação não apresenta nomeações de profissionais e artistas negros, indígenas e latino-americanos, principalmente mulheres, se exclui e deixa de lado diversos movimentos culturais e políticos que essas pessoas fazem parte e lutam contra todos os dias.

Dessa maneira, selecionei alguns dados e acontecimentos onde a premiação não foi inclusiva, como forma de estimular reflexões e até mesmo, com a influência da internet, manifestar  indignação e, ao mesmo tempo, impulsionar mudanças.

 A ativista indígena Sacheen Littlefeather, em nome de Marlon Brando, recusa o prêmio por ele e usa o espaço para se manifestar

Mesmo com políticas e movimentos em combate ao preconceito cada vez mais fortes, ainda é possível presenciar cenas desprezíveis e cruéis nos dias de hoje. Imagine situações como essas anos atrás, muitas ações preconceituosas eram consideradas normais e usadas como piadas. Marlon Brando recusou seu prêmio pela atuação como Don Corleone em “O Poderoso Chefão” para dar lugar a Sacheen Littlefeather, que usou o momento para discursar a respeito de sua revolta contra o preconceito por parte de show business americanos aos indígenas.

Apenas sete mulheres já foram nomeadas ao Oscar de melhor direção de filme

Ao perceber que até hoje apenas Kathryn Bigelow ganhou o Oscar de melhor direção de filme com o “Guerra ao Terror” (2010), é inevitável não sentir indignação, já que a premiação existe há muitas décadas e que ao decorrer dos anos, diversas produções de filmes dirigidos por mulheres foram lançadas. A questão principal é que Hollywood ainda possui um machismo enraizado, porém não impossível de combater.

Mesmo que a luta ainda pareça estar começando, o Oscar 2021 é o primeiro a nomear duas mulheres, ao mesmo tempo, na categoria de Melhor Direção de Filme, sendo elas Chloé Zhao pelo filme “Nomadland” e Emerald Fennell por “Bela Vingança”. Essa ação por parte da Academia não significa que o machismo não estará mais presente na premiação, contudo foi um grande passo que, sem dúvidas, está inspirando e promovendo esperanças para as jovens cineastas aspirantes e para outras que foram deixadas de lado pela premiação.

Até hoje, apenas quatro mulheres latino-americanas foram indicadas ao Oscar

Em 1998, Fernanda Montenegro foi a primeira atriz da América Latina a ser indicada na categoria de Melhor Atriz por sua performance como Dora, em Central do Brasil, um filme de língua não inglesa. Depois de 4 anos, em 2002, foi a vez de Salma Hayek, por “Frida” e em 2005, Catalina Sandino Moreno, por “Maria Cheia de Graça”. Contudo, apenas depois de 14 anos outra atriz latino-americana foi indicada à categoria. Yalitza Aparicio fez história com o filme “Roma”, recebendo a indicação de Melhor Atriz no Oscar 2019. 

Assim, se percebe uma grande falta de estímulo a representatividade por parte da Academia, já que progressivamente muitas atrizes latino-americanas crescem e participam de ótimas produções, sendo dignas de indicações por suas excelentes performances.

Menos de 1% dos prêmios da Academia foram para negros

Parece um tipo de brincadeira mas, infelizmente, são dados reais. Em mais de 90 anos de Oscar, nem 1% dos prêmios foram para pessoas negras. Entretanto, artistas e profissionais negros lutam diariamente junto ao movimento Black Lives Matter para mudar o sistema. Uma das revoltas aconteceu entre os anos de 2014 e 2015, quando nenhum negro estava presente nas listas de nomeados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. O acontecimento gerou impacto nas redes sociais com a criação da hashtag #OscarSoWhite, onde milhares de artistas negros manifestaram suas indignações à 88° cerimônia do Oscar. É um desafio ser um artista negro e receber o reconhecimento e espaço que merece, agora, imagine uma artista negra, que além do preconceito racial, também enfrenta o machismo frequentemente.

Hattie McDaniel foi a primeira mulher negra a vencer o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel em “E o Vento Levou” em 1939. Após 81 anos, em 2020, apenas mais 11 artistas negras tiveram a chance, sendo elas Jennifer Hudson, Mo’Nique, Regina King, Octavia Spencer, Lupita Nyong’o, Viola Davis e Whoopi Goldberg na categoria de Melhor Atriz coadjuvante, Halle Berry em Melhor Atriz, Ruth E. Carter em Melhor Figurino, Hannah Bleacher em Melhor Direção de Arte e Karen Rupert Toliver em Melhor Curta-Metragem de Animação.

Renata Batista, diretora teatral e atriz negra, afirma que percebe a mulher preta ainda sendo colocada em um lugar pejorativo. As mulheres, em geral, já não atingem grandes camadas na sociedade, principalmente no entretenimento. A maior parte dos filmes apresentam protagonistas homens e quando é uma mulher, costuma ser branca, e em muitos casos bem sucedida.

Dessa forma, quando pensamos em um filme com uma protagonista preta, não tem como escalar outra atriz sem ser uma mulher negra, porém, na visão de uma parte da sociedade isso significa que mudanças estão sendo feitas. Mas não é comum ver uma atriz negra interpretar um papel de uma socialite ou de uma médica, ambas bem sucedidas. Papéis como esses são destinados, frequentemente, a mulheres brancas.

Para Renata, essa problemática ainda é uma luta, com algumas mudanças transparentes, porém há muito a que se aprender ao observar, diariamente, falas racistas pronunciadas pela sociedade. Além disso, a atriz afirma que está presente nas nossas próprias novelas, como em “Amor de mãe”, que por muitas vezes, quando abordam personagens negras, as colocam do começo ao fim em situações de sofrimento e dor para expressar o estereótipo de que toda mulher negra é forte.

Para ela,  é nítido que faltam mulheres negras escrevendo para mulheres negras e ser artista é modificar algo no mundo. A diretora acha que a exclusão por parte da Academia pode impactar os novos artistas, mas que isso não será algo que os fará desistir. Em sua visão, deve ser algo desestimulante não se ver representado nas indicações e nos filmes, porém, quando um negro escolhe ser artista, ele sabe que irá enfrentar uma grande batalha, como a falta de papéis disponíveis.

A atriz acredita em mudanças futuras na premiação e na sociedade, mas ainda pensa que é algo instável até o momento. Dessa forma, na visão dela, ainda irá levar por volta de 30 a 40 anos para a igualdade racial chegar em um lugar natural, sendo a Geração Z uma das responsáveis por diversas transformações nesse âmbito, pelo grande acesso à informação que é estimulado pelos jovens atualmente. Dessa forma, começam a educar os mais velhos e consequentemente, irão educar as gerações futuras, criando uma corrente de aprendizagem. Renata expressa que um dos grandes problemas a serem corrigidos é a sociedade invalidar a dor de uma pessoa negra que sofreu um preconceito. Para ela, o discurso “Mas ele não falou por mal, isso é mimimi!”, é uma forma de não problematizar o que deve ser um problema, um crime, o racismo.
 

A experiência pessoal de uma atriz negra

Renata acredita que por ter sido uma menina com uma infância pobre, se reconhecendo como negra ao longo de sua trajetória, escolheu o teatro como uma forma de reproduzir sua revolta contra o sistema e educar as pessoas para não serem racistas e sim tornarem-se antirracistas. A mulher já viveu e presenciou situações preconceituosas, que não percebeu na época, como durante sua trajetória de 15 anos de atriz e diretora teatral das peças que ocorriam no “Sítio Pica Pau Amarelo”, localizado em Taubaté, no interior de São Paulo.

Na adaptação das obras de Monteiro Lobato para o teatro, ela percebeu falas racistas da personagem Emília direcionadas para a Tia Anastácia, como “macaca” e “sua preta bençuda”. A direção que ela trabalhava a impedia de colocar as falas na peça como uma forma de esconder a situação.

Ainda trabalhando para o Sítio, a atriz era julgada pelo público se interpretasse a Tia Anastácia, por ser uma negra não retinta. As pessoas achavam que ela era muito “branca” para a personagem. Já quando interpretava a Dona Benta, o público achava que ela era muito “morena”. Além disso, a diretora disse que uma atriz negra de seu elenco costumava interpretar a Narizinho, e mesmo apresentando características físicas parecidas com o da personagem, muitas vezes o público não aceitava e fazia comentários preconceituosos.

O musical “Dona Ivone Lara – um sorriso negro”, apresentado por uma amiga de Renata, em São Paulo, teve um elenco completo de artistas negros com a estreia para uma plateia negra, o que arrepiou e emocionou a todos que estavam no local pela representatividade.

Para ela, a representatividade de outras mulheres negras usando seus cabelos naturais a ajudou a usar suas tranças e assumir seu cabelo afro. É essencial a representação para estimular as próximas gerações a reconhecer suas origens e suas identidades, algo que a atriz só conseguiu depois de muitos anos trabalhando em sua própria aceitação.

Um indivíduo negro, principalmente uma artista mulher, deve se reinventar e mostrar que é capaz, a todo momento, enquanto outros tomam posições altas por serem brancos privilegiados. É essencial que as pessoas se eduquem para entender o que é o racismo, procurem entender as raízes do preconceito, até o seu impacto atual, além de escutarem pessoas negras quando elas manifestarem suas batalhas. Não é responsabilidade deles ensinarem aos outros que devem ser respeitados, porém é essencial que não sejam silenciados, para assim terem o poder de falar por si mesmos.

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O artigo acima foi editado por Giullyana Aya Lourenço.

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Maria Eduarda Ribas

Casper Libero '24

Apaixonada pela arte e por tudo aquilo que se pode criar através dela.
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