Sobre Ser Mulher Em Qualquer Idade: Conheça Laura Valvezan

Laura Trocolette Valvezan tem uma história inspiradora. Avó, tia, mãe, mulher, que nos mostra o motivo de não temermos a velhice.

Cabelos tingidos, curtos e finos. Sentada no sofá de sua sala, com as pernas dobradas em uma pose confortável, ela conta sobre sua vida. Nascida em Santo André (SP) em 1942, tem 75 anos. Atualmente está aposentada, morando com seu marido na casa em que criou seus filhos, mas a vida nem sempre foi tão calma e serena.

Quando criança, Laura era responsável pela criação de dois irmãos: uma tinha Síndrome de Down e o outro, Miastênia (grave distúrbio crônico neuromuscular caracterizado pela fraqueza muscular e fadiga rápida quando o músculo é exigido) - ele morreu aos 28 anos. Com 14 anos, Laura começou a trabalhar na “Rodhia Medicamentos”, fazendo a embalagem de remédios similares ao Viagra, por exemplo. Ela conta que morava perto do trabalho e que tinha uma relação conturbada com os pais. Eles não a deixavam sair e os únicos lugares os quais ela podia ir eram a escola e o trabalho. Até quando ia à igreja era acompanhada pelos seus progenitores.“Meu pai só me deixava ir para Rodhia e para a escola. Como ele trabalhava lá, praticamente não tinha nenhum momento em que ele não estava de olho em mim.”

Santo André era tomada por fábricas. Até hoje na cidade ainda existe a avenida industrial. Ela diz que esta região era tomada por fábricas de todos os tipos: remédios, materiais de construção, produtos de beleza e tudo o que você pudesse imaginar. A última fábrica a chegar foi a de fertilizantes. Laura conta que ela era tão poluente e soltava um cheiro tão insuportável, que não se ouvia mais os pássaros cantar, eles sumiram completamente da cidade.

As crianças começaram a nascer com alterações genéticas e a população foi ficando cada vez mais doente. Quando outros estados do país começaram a dar benefícios para que as fábricas se mudassem, elas foram indo embora até não sobrar mais nenhuma. “Muita gente perdeu seus empregos, porque na época das fábricas o que não faltava era emprego. Mas foi muito bom quando eles foram embora, a gente começou a respirar melhor, com menos poluição.”

Ela se considerava muito paqueradora. “Eu e a minha prima paquerávamos todo mundo que passava na rua. Ficávamos no muro de casa olhando todos os meninos que voltavam do trabalho.” Todos os dias Laura ficava olhando João conversando com um amigo na esquina da rua de sua casa. Ela arranjava todos os tipos de desculpa para passar perto deles, mas não perto o suficiente para que eles pudessem sequer se cumprimentar. Um dia, ela não conseguiu fugir. Teve que passar pela calçada onde os dois amigos estavam e conversou com João, que tanto ela quanto a prima achavam o mais “bonitinho”. Sua prima conseguiu que os dois meninos fossem numa festa da igreja e cada uma começou a namorar com um deles.

Laura diz ter saudade dos tempos de ditadura militar. Não tinha medo de andar nas ruas à noite, disse que a justiça era feita e tudo funcionava melhor. Seu tom, saudosista. Ela considera que tudo é pior hoje em dia e diz ter saudades de como os militares colocavam “ordem” nas ruas e na sociedade. “Não tinham esses vagabundos na rua. Se um começasse a fazer gracinha o milico já ia resolver. Na época foi muito bom pra mim pois eu não fazia nada, quem sofria era porque fazia bagunça. Anos depois fomos descobrir o que a ditadura realmente fez e os horrores que as pessoas passaram. Na época era tudo muito bom”.

Foto: Acervo pessoal

Casada, ela teve três filhos. Parou de trabalhar para cuidar da casa e das crianças. Quando sua mãe adoeceu, ela, por meio de um amigo que trabalhava em uma seguradora chamada “Golden Cross”, conseguiu conversar com o dono. Tocado pela história, ele bancou todo o tratamento nos melhores hospitais da cidade. Ela conta que todos os dias na UTI, sua mãe insistia para que começasse a vender seguros de vida. “Laura, não perca sua juventude cuidando de filho. Vai vender seguros que você leva jeito”, sua mãe dizia. De tanta insistência, ela foi. Começou vendendo Golden Cross, depois Sulamérica e aos poucos vendia todos os do mercado. “E disso eu fiz a minha vida. Eu vendia muito e trouxe muito dinheiro pra casa nessa época. Ganhava 310% em cima de cada venda. Meus filhos falam que isso não é possível, mas era o que eu ganhava”.

A igreja também sempre foi muito importante na vida de Laura. Quando seus filhos eram pequenos, se converteu para a igreja adventista, levando a família toda. Ela conta que a igreja ocupava a mente e a confortava quando sua mãe partiu. “Apesar de tudo que aconteceu quando eu era criança, eu e minha mãe tínhamos uma boa relação e senti muita falta quando ela foi embora. Sem ela eu não teria sido tudo o que fui na minha vida, e sem a igreja não teria aguentado a barra.”  

Foto: Acervo pessoal

Em 2014, ela descobriu um câncer na mama direita. Há mais de cinco anos se tratava com o mesmo médico, fazendo exames de prevenção a cada seis meses. Em 2013, fez o exame em outubro e o médico falou que ela não precisava voltar correndo logo depois do carnaval, pois estava bem e não havia nenhum perigo. Quando voltou para fazer os exames, descobriu o câncer. “Uma amiga, um pouco antes de eu descobrir o câncer, tinha me dito para parar de ir nesse médico porque conhecia três pessoas que tinham morrido de câncer de mama na mão dele.” Assim que recebeu o diagnóstico, decidiu que não queria se tratar com este médico e foi para o AC Camargo, em São Paulo. Descobriu vinte e seis nódulos malignos na mama e embaixo da axila direita. “Se eu continuasse me tratando com ele, hoje não estaria aqui”, ela completou. Ela tirou os nódulos mas o médico, pela biópsia, descobriu que ainda havia mais. Depois de um mês da cirurgia ela tirou mais 10 nódulos, que estavam mais profundos e não foram percebidos na primeira cirurgia. Por um centímetro não foi preciso retirar a mama inteira.

Quiomioterapia, radioterapia e muitos tratamentos. A Laura de antes não existia mais. Os cabelos caíram, a disposição diminuiu e ela teve que começar um novo tratamento: no braço. Com a retirada dos nódulos da axila, a glândula responsável pela circulação dos fluídos também teve que ser tirada. Até hoje ela precisa ir uma vez por semana ao hospital para “bombear” o braço e evitar que ele inche. A máquina faz o trabalho que a glândula retirada faria. Ela teve e ainda tem o apoio completo da família e da igreja, fazendo-a passar pelos tratamentos com toda a atenção e carinho que merece.

Perguntada sobre o que mudaria se tivesse a experiência de hoje quando era jovem, ela afirmou: “Eu conversaria mais com os idosos da igreja. A correria do dia a dia faz a gente querer passar reto por eles, pois falam demais. Mas eles só querem conversar, sabe?” Pensativa, olhou para a parede um momento e completou: “Nunca tive medo de doenças. Em casa sempre tive meus irmãos doentes, então não tive medo quando o câncer chegou. Mas acho que ele me ensinou uma lição. A gente fica tanto tempo se preocupando com coisas bobas que não percebe o quanto a vida passa rápido e pode acabar em um instante. Escreve aí: Aproveitem a juventude e não fiquem se preocupando demais com o que não precisa.”

Estudante de jornalismo apaixonada pela comunicação e a forma como ela estreita as relações entre as pessoas.

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